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Linguagista

Léxico: «lastra»

Considerações mansas

 

      Ainda não há no Facebook um grupo de defesa dos regionalismos? Fica a ideia — até porque há lá coisas bem mais ridículas e inúteis.

      Tenho aqui à minha frente um texto em que aparece o regionalismo «lastra». Já conheciam? Não é muito provável. «A fila era ainda longuíssima, e já só se podia passar por um corredor a sete ou oito metros de distância do altar sob o qual o tinham colocado, assinalado com uma simples lastra de mármore branco com o seu nome escrito.» Não é de agora que os regionalismos são olhados de soslaio. Já Asinius Pollio, que pelo nome não se perca, governador da Gália Cisalpina, criticou os regionalismos de Patavium (actual Pádua) usados por Tito Lívio na sua obra. Não percebeu patavina, decerto. Substituiria o regionalismo se não figurasse nos dicionários mais comuns. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que se trata de regionalismo. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acrescenta que é regionalismo transmontano, e o mesmo regista o Dicionário Houaiss. Em dicionários mais antigos, curiosamente, não aparece em todos.

      E qual será a etimologia do vocábulo? Desconhecida, parece, mas talvez do espanhol lastra («Piedra más bien grande, naturalmente lisa, plana y de poco grueso», lê-se no DRAE), e este do italiano. Não estará, assim, relacionado com o vocábulo «lastro», com étimo francês. «Lastra» também é a lâmina de pasta argilosa que se converte em telha, acepção que poucos dicionários acolhem. E a propósito: foram os Romanos que nos ensinaram a fazer telhas de meia-cana (obrigadinho!). Punham os escravos a fazê-las a partir de lastras, usando a coxa como molde. Saíam, já podem calcular, muito diferentes, o que terá dado origem à expressão «feito em cima do joelho».

    «Se eles pegão em Homero, e ali mesmo em cima do joelho o traduzem, e achão defeitos na tradução de Pope!» (Considerações Mansas sobre o Quarto Tomo das Obras Métricas de Manoel Bocage Acrescentadas com a Vida do Mesmo, José Agostinho de Macedo. Lisboa: Impressão Régia, 1813, p. 21).

 

[Texto 12]

 

 

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