Cordas e camelos

Qual é o cristão aí que?...

 

 

      Acabei de ler aqui num texto aquela frase do Evangelho segundo S. Mateus de ser mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino dos céus e pus-me a pensar se algum catequizando — ou, enfim, qualquer pessoa — se deterá um momento perante a aparente absurdidade. «Ora os discípulos», lê-se na Bíblia, «ouvidas estas palavras, conceberam grande espanto.» Por motivos diferentes dos dos nossos contemporâneos, decerto. Todo o aparente absurdo se funda, afinal, na acepção do vocábulo «camelo», que, no contexto, não é o mamífero ruminante, mas um calabre náutico. Na tradução para o latim, pela semelhança entre os vocábulos gregos para «camelo» e para «corda», o tradutor errou. A polissemia, já o disse, não mata, mas mói.

 

[Texto 129]

Helder Guégués às 17:18 | comentar | favorito
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