«Encarniçamento terapêutico»

Pior a cura que o mal

 

 

      «Encarniçamento terapêutico», leio aqui numa obra que estou a rever. A expressão não deixará de nos causar estranheza. (Relembro o conceito: é o uso de tratamentos que se podem considerar inúteis ou, embora úteis, desproporcionadamente incómodos para o resultado que deles se espera.) A origem só pode ser estrangeira, como habitualmente. Vejamos. Nos países anglo-saxónicos, a expressão usada é medical futility; nos países de língua portuguesa, usa-se indiferentemente encarniçamento terapêutico e obstinação terapêutica. A primeira é a tradução literal do francês acharnement thérapeutique. Acharnement é «encarniçamento», «obstinação». E «encarniçamento» é, como se sabe, a insistência em prosseguir, em manter alguma coisa; teimosia, pertinácia, obstinação. É palavra que nos traz de imediato à mente a ideia de furor, de ferocidade, de sanha. Se não for má prática linguística, é de certeza má prática médica, mas este não é debate para aqui.

 

[Texto 134]

Helder Guégués às 11:20 | comentar | favorito
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