Por água e por vinho

Vai uma sacholada

 

 

      «Parafraseando Aquilo [sic] Ribeiro, “em Portugal mata-se por água e por vinho”. Ou seja, nas partilhas, nas divisões de terras, todos preferem as zonas com água, e as quezílias muitas vezes acontecem já depois de algum álcool consumido» («Questões familiares explicam 27% dos homicídios em 2011», Diário de Notícias, 1.06.2012, p. 7).

      Quanto ao vinho, estamos entendidos. Já quanto à água, não é assim que entendo os motivos das agressões e homicídios. Tanto quanto sei, eu, citadino, essas desavenças, que outrora ocupavam boa parte do tempo de um magistrado na província, eram originadas por desentendimentos sobre a distribuição (e, assim, partilha, sim, mas não no sentido de divisão dos bens de uma herança) de águas para rega, águas de levadas, por terrenos de cultivo. Adrede ou por esquecimento, um agricultor prolongava o tempo em que tinha a água a correr para os seus terrenos, e lá vinha o vizinho prejudicado dar-lhe uma sacholada, vazando-lhe um olho ou matando-o. Como também escreve Gilbert Durand, «a água divide e a água reúne».

 

[Texto 1626] 

Helder Guégués às 08:05 | favorito
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