Da linguagem dos magistrados

Isto tem de mudar

 

 

      A directora do Centro de Estudos Judiciários (CEJ), em comunicado, referiu que o infeliz caso do copianço se deu numa «exercitação realizada pelos auditores de Justiça do XXIX Curso Normal de Magistrados Judiciais e do Ministério Público», que envolveu 137 candidatos. Ontem, no Jornal das 9, Mário Crespo admitia que o vocábulo existia, sim, senhor, mas era uma forma pouco comum de alguém se referir a um simples teste ou exame. De facto, tratando-se de um comunicado, é para toda a população, e a gíria da área ou a linguagem rebuscada não se adequam ao fim em vista: esclarecer. É uma infeliz manifestação da linguagem prescritiva, bebida nas próprias normas, dos magistrados, que não estão habituados a comunicar, pelo menos no sentido etimológico do termo, antes a discursar solipsisticamente. Quando o bastonário da Ordem dos Advogados afirma que o sistema judicial português é medieval, é também nisto que deverá estar a pensar.

      Exercitação foi termo muito da preferência de António Feliciano de Castilho: «Outra vantagem de não leve monta lhe provirá desta exercitação: acostumar-se-á desde logo a variar por muitos modos a linguagem para ocorrer às sucessivas exigências dos vários metros; extraordinário recurso que depois se aplaudirá de possuir» (Tratado de Metrificação, António Feliciano de Castilho. Lisboa: Imprensa Nacional, 1851, p. 101). (Actualização ortográfica minha.)

 

[Texto 174] 

Helder Guégués às 09:50 | favorito
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