Uso impessoal do verbo «ter»

Hoje não tem perigo

 

 

«Madalena

(falando ao bastidor)

— Vai, ouves, Miranda? Vai e deixa-te lá estar até veres chegar o bergantim; e quando desembarcarem, vem-me dizer para eu ficar descansada. (Vem para a cena.) Não há vento, e o dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a viagem. Mas a volta... quem sabe? O tempo muda tão depressa...

Jorge — Não, hoje não tem perigo» (Frei Luís de Sousa, Acto I, cena 10, Almeida Garrett).

 

      «Já disse uma vez e repito-o hoje: quanto melhor se conhece a língua arcaica e mais se investigam os falares portugueses, menor é o número de brasileirismos. Eu próprio tive de corrigir-me, como o fiz diversas vezes em aula e o faço agora pela primeira vez ante público maior. Em A Língua do Brasil arrolei como brasileirismo o uso impessoal de ter, a indicar existência de acto ou facto. Mas, andando pelo Alto-Minho, dei com o fenómeno em Póvoa-de-Lanhoso (e bons conhecedores da fala popular portuguesa me informaram que ele ocorre em outros sítios), o que me animou a retirar as dúvidas e reservas que punha na interpretação deste passo do Frei Luís de Sousa, de Garrett» («A unidade da língua-padrão», Gladstone Chaves de Melo, in A Bem da Língua Portuguesa, boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, 1971, n.º 7,  p. 6).

 

 [Texto 1851]

 

Helder Guégués às 09:16 | favorito
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