Superlativo hebraico

É só repetir

 

 

      «Há 21 anos nesta escola [Escola Básica e Secundária de Carcavelos], para Leonor Brazão o único segredo para os exames nacionais é trabalhar, trabalhar, trabalhar» («Apostas em Sttau Monteiro, Pessoa e José Saramago», Romana Borja-Santos, Público, 20.06.2011, p. 9).

      Em literatura, diz-se logo que se trata de repetição com valor expressivo. Quem já leu composições de alunos do 2.º ciclo, de crianças de 11 ou 12 anos, sabe que a repetição de uma palavra é, pela sua simplicidade, um dos recursos que mais usam. «E depois o príncipe foi andando, andando, andando...» Nunca mais parou. Isto fez-me lembrar outro recurso, também fundado na repetição. Ainda se ensina na escola o superlativo hebraico? Decerto que não. Nem a maioria dos professores mais novos saberá do que se trata. Rei dos reis, vaidade das vaidades, cânticos dos cânticos... Estão a ver agora? É uma construção enfática que consiste na intensificação do substantivo pela sua repetição no plural como adjunto adnominal. Veio do hebraico, pela Bíblia, directamente para o português, para o castelhano, para o francês, para o italiano, para o inglês. Em alemão, muito antes de qualquer vaga de anti-semitismo, o Cântico dos Cânticos passou, no século XVI, de Lied der Lieder para Hoheslied ou das Hohelied. «A vista repousava, bêbeda de luz, na confiança das confianças», escreveu Aquilino Ribeiro.

 

 

[Texto 186]

Helder Guégués às 19:56 | comentar | favorito
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