«Linchamento/linchagem»

De rustilhão

 

 

 

      «Em Paris, os socialistas franceses criticam violentamente a justiça norte-americana. […] Fala-se mesmo em exibição, morte mediática e linchagem de Strauss-Kahn» (Maria de São José, noticiário do meio-dia, Antena 1, 17.05.2011).

      Ouve-se com muito mais frequência «linchamento». O sufixo –mento, formador de substantivos derivados de verbos, é muito mais abundante em português. Apesar de registado por todos os dicionários — e enciclopédias: «Linchagem, s. f. Acção de linchar, linchamento» (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira) —, não é muito usado na literatura, mas eis um passo de Aquilino Ribeiro em que surge: «O Janota deu uma dentada no mais atrevido, o qual, recalcitrando, além de apanhar nova dentada, foi, uma vez projectado no meio dos outros, objecto de linchagem e perseguido de rostilhão pelas leiras, rabo entre as pernas […]» (Quando ao Gavião Cai a Pena, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand, 1972, p. 177).

      Ah, sim «de rostilhão» não está dicionarizado, mas sim «de rustilhão»: «Rustilhão, s. m. Adoptado na locução de rustilhão, isto é, de roldão, de cambulhada» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado). «Aquele enorme caixão vinha sem pressa, de onde eu estava, parecia que alguém por detrás se lhe tinha agarrado à cabeceira, como quem se abraça, desesperado, a uma jangada que vem de rustilhão, por uma cheia» (Os Gatos, Fialho de Almeida. Lisboa: Clássica Editora, 1992, p. 120).

      As crianças têm tendência para usar o sufixo –agem. Ainda no sábado a minha filha disse que no dia seguinte queria continuar a «escavagem».

 

[Texto 18]

Helder Guégués às 22:07 | favorito
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