«Presidenta»?

Isto vai passar-lhes, coitados

 

      Luís Miguel Queirós (de chapéu?) escreve hoje um artigo no Público sobre o uso da forma «presidenta», agora relançado imprudentemente por Miguel Relvas no Parlamento. Com a devida vénia, reproduzo-o na íntegra.

 

      «No documentário José & Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, há um momento em que Pilar del Río se abespinha com um jornalista que a trata como “presidente” da Fundação José Saramago. Pilar explica que é “presidenta”, argumentando que se a palavra não se usava no passado, isso se devia à circunstância de os presidentes serem todos homens. E quem seguiu em Portugal, pela televisão, a recente tomada de posse de Dilma Rousseff, fartou-se de ouvir a palavra “presidenta”.

      Na terça-feira, o novo ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, aderiu à moda e referiu-se a Assunção Esteves, que acabava de ser eleita presidente da Assembleia da República, como “presidenta”.

      Afinal, “presidenta” — o Dicionário da Academia não regista a palavra, mas o da Porto Editora aceita-a como neologismo — é ou não português correcto? O professor António Emiliano, do departamento de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, não tem a menor dúvida: “‘Presidenta’ não é português”. Dado que “presidente” é um substantivo de terminação invariável, comum aos dois géneros, quando queremos precisar se o presidente em causa é um homem ou uma mulher devemos recorrer ao artigo (o/a), esclarece o linguista, ou a um outro qualquer determinante (aquele/ aquela; esse/essa).

      Emiliano acrescenta que a eventual adopção oficial da forma “presidenta” para designar a nova presidente do Parlamento “seria absolutamente lamentável”, já que, observa, “as instituições do Estado devem dar exemplo de correcção e rigor”. O linguista alerta ainda para o risco de se estar a “abrir a porta” a outros “barbarismos” afins, como “tenenta”, “agenta”, “comandanta” ou... “ignoranta”.

      Mesmo sem entrar em terrenos demasiados técnicos, enquadrando “presidente”, e outras palavras portuguesas de idêntica terminação, no desaparecido particípio presente que o português antigo herdou do latim, qualquer falante de português intui que “presidente” é aquele ou aquela que preside. Ou seja, como assinala António Emiliano, “a palavra remete mais directamente para a acção do que para as características do sujeito da acção”.

      O argumento invocado por Pilar del Río parece sugerir que, por detrás da tentativa de vulgarizar o termo “presidenta”, estará o propósito de garantir a igualdade de géneros também em matéria de língua. Mas pode contrapor-se que impor um feminino a uma palavra que não distingue géneros é, pelo contrário, um gesto sexista, que cria uma diferença onde ela não existia. Em termos estritamente gramaticais, tratar Assunção Esteves como “presidenta” é exactamente tão arbitrário como chamar “presidento” a Cavaco Silva.

      Como ninguém diz “agenta” ou “agento”, “adolescenta” ou “adolescento”, “clienta” ou “cliento”, “presidenta” — e o mesmo sucederia com “presidento” — surge como uma excepção sem precedentes e que, por isso mesmo, nos soa mal. E não será descabido argumentar que este “soar mal” tem consequências semânticas, emprestando à palavra um tom ligeiramente achincalhante.

      É claro que, na linguagem falada, muitas autarcas já terão sido tratadas como “a nossa ‘presidenta’ da junta”, e que ninguém se espantaria por ouvir um merceeiro dizer que a D. Fátima é a sua melhor ‘clienta’. Quando são reconhecidamente frequentes, estes usos populares devem ser registados, enquanto tal, nos dicionários. Não devem é ser acriticamente integrados na norma culta da língua, pela qual o Estado tem a obrigação constitucional de zelar.

      Argumentar-se-á que se as televisões nos martelarem diariamente com a palavra “presidenta”, e os jornais forem atrás, e já agora os professores, um dia os nossos netos nem saberão que houve um tempo em que não se chamava “presidentas” aos presidentes do sexo feminino. Talvez tenham razão. De resto, se recuarmos o suficiente, encontraremos exemplos de palavras que eram comuns aos dois géneros e que, posteriormente, vieram a ter uma forma masculina e outra feminina. É o caso, lembra António Emiliano, de “senhor” no português medieval.

      Mas o linguista (ou será o “linguisto”?) também recorda que só a partir da segunda metade do século XVIII, com os primeiros esforços de dicionarização, se pode falar de uma norma-padrão para o português. E uma das vantagens de possuirmos este instrumento é justamente a de podermos controlar a entrada de usos populares, corruptelas, neologismos e modismos no uso autorizado da língua. Prescindir desta fiscalização deixaria a escrita do português entregue ao livre-arbítrio de cada escrevente e “escreventa”. Algo que parecerá simpaticamente anárquico, mas que só poderia ser descrito, e por uma vez com propriedade, como um retrocesso civilizacional» («Assunção Esteves é presidente ou “presidenta”?», Luís Miguel Queirós, Público, 24.06.2011, p. 8).

 

[Texto 208]

Helder Guégués às 12:11 | comentar | favorito | partilhar
Etiquetas: