«Pudico/púdico»

A língua vai nua

 

 

      «Pudico — Não se diga púdico, com o acento tónico no u. Diga-se pudíco, com o acento tónico no i, respeitando assim a acentuação latina» (Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 4.ª ed., 1995, p. 359).

      Já é a segunda vez que hoje cito Rodrigo de Sá Nogueira, um estudioso que nem sequer aprecio muito. Justifica-se, porém, por ser, de momento, a obra que tenho à mão para tratar de um caso que vejo aqui no Público: «O fim-de-semana que está à porta também dará oportunidade para os mais púdicos pedalarem vestidos nas ruas de Lisboa e não só: amanhã à tarde realiza-se o Cycle Chic Lisboa e, no domingo de manhã, quem quiser poderá atravessar a Ponte Vasco da Gama com a sua bicicleta» («Ciclistas vão pedalar por Lisboa sem roupa e sem preconceito em defesa do ambiente», Inês Boaventura, Público, 24.06.2011, p. 18).

      Não há estudioso da língua decente que aceite a «variante» (como alguns querem) esdrúxula. Hildo Honório do Couto afirma que se trata de uma hipercorrecção, e escreve: «É que o português não aprecia o padrão acentual proparoxítono. Tanto que ele mal chega a 10% das palavras da língua, sendo que as oxítonas perfazem cerca de 20%. As paroxítonas é que são preferidas, pois nelas entram 70% das palavras. Pois bem, pensaria o falante das variedades estigmatizadas, “pudico” é muito caseiro muito feijão-com-arroz, por ser paroxítono. Na linguagem culta deve ser “púdico”, porque, assim falando, “está falando bem, como o homem da cidade”» (Ecolingüistica, Hildo Honório do Couto. Brasília: Thesaurus, 2007, p. 405).

 

 

[Texto 211] 

Helder Guégués às 17:13 | favorito
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