«Algum» em frases negativas

Não serve para negar

 

 

      «Este comunicado do conselho de administração do Colombo termina garantindo que em algum momento foi perturbado o normal funcionamento do centro comercial, que encerrou à meia-noite, como estava previsto» (Arlinda Brandão, noticiário do meio-dia, Antena 1, 25.06.2011).

      Apenas posposto a um substantivo que acompanha é que o pronome indefinido algum assume significação negativa, até mais forte, estilisticamente, do que a expressa pelo pronome nenhum. Este sim, pode seguir ou preceder o nome. Outro erro muito difundido relacionado com o uso de «nenhum» é, em frases com uma negativa antes do verbo, usar-se «qualquer»: «Não sentiu qualquer problema em arrombar a porta.» Já «nenhum», acompanhado de outra negação antes do verbo, é idiotismo francês, que a determinada altura entrou, imitado pelos nossos escritores, na língua, tendo pegado de estaca. Esta asserção, porém, não é confirmada por Rodrigues Lapa, que escreve na Estilística da Língua Portuguesa: «A dúvida estilística mais importante que suscita hoje o pronome indefinido é o seu emprego e colocação em frases negativas. Nos primeiros tempos da língua, para esses casos usava-se o indefinido negativo nenhum, antecedendo o substantivo. Exemplo: “Não há nenhuma cousa de que sinta receio”. É ainda hoje a forma popular e corrente. Como havia na frase duas negações (não e nenhuma) constituindo pleonasmo, os escritores, amigos da lógica e do que supunham ser elegância, começaram a favorecer o emprego de algum na frase negativa» (p. 173).

 

[Texto 217]

Helder Guégués às 09:41 | comentar | favorito | partilhar
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