Como se escreve nos jornais

Esta é a doer

 

 

      «Mas um artigo publicado este mês na revista científica Public Library of Science – Biology (PLOS), acaba por pôr também em causa a integridade científica de Stephen Jay Gould — não preto no branco, mas é o que se pode aferir das conclusões dos cientistas que reconstruíram as experiências de Morton e chegaram à conclusão de que ele não terá manipulado, nem inconscientemente, as suas medições da capacidade craniana, feitas com sementes de mostarda, como dizia Gould» («O passo em falso de Stephen Jay Gould», Clara Barata, Público, 25.06.2011, p. 12).

      É — nada de eufemismos — uma manifestação indisfarçável de ignorância da língua. Soava-lhe, decerto, que era qualquer verbo terminado em –ferir. Desferiu a flecha para aferir — e azar, não era! Aferir é cotejar com os respectivos padrões; pôr marca de aferição em; examinar a exactidão de; comparar; avaliar. Inferir é deduzir por meio de raciocínio; concluir. Lá está: disferiu, diferiu a obrigação de consultar um dicionário, e deu nisto. Anteferiu-lhe, foi o que foi, a memória. Faça agora o favor de conferir nos dicionários, se quer continuar a auferir a consideração dos leitores. Agora não transfira a culpa para outrem nem volte a malferir desta maneira a língua. E pronto, não interfiro mais na sua tranquilidade (eu até preferia não ter dito nada). Não profiro nem mais uma palavra sobre o assunto.

 

 

[Texto 219]

Helder Guégués às 08:02 | favorito
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