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Linguagista

Sobre «avocar»

Nunca vira

 

 

      «Sidónia Silva, 18 anos, estudante de Fenais da Luz que votou ontem pela primeira vez, diz ter “esperança que isto vire”. E se amaioria do PS se concretizar, não tem dúvida de que é por causa do que o governo central fez (como aliás o próprio primeiro-ministro acaba de reconhecer, avocando a si a responsabilidade da derrota antes da declaração de Berta, que só falará às 21 horas), mas tudo “porque quem nos meteu nisto foi o Sócrates – que é do PS, não é?”» («A maioria absoluta para o PS veio do Continente», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 15.10.2012, p. 8).

      Avocar é chamar a si — responsabilidades, por exemplo, sim —, mas nunca antes li o verbo empregado neste sentido. É muito usado em Direito: chamar a um tribunal uma causa ou processo que corria por outro.

 

[Texto 2207] 

4 comentários

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    Montexto 17.10.2012 02:57

    Lamento, caro André, mas tal construção está correcta. As aludências aparudem, e em gramática, e mormente em sintaxe, ainda mais. Usar a estrita lógica na análise de casos tais e quejando é meio caminho andado para o desastre.
    Já no velhinho Morais, que se abona inclusive com a Monarquia Lusitana - porventura até de Bernardo de Brito, por quem Camilo jurava em matéria de vernaculidade: «português como uma página de Bernardo de Brito», - mas facilmente atestável em qualquer autor:
    . «Avocar: v. at., chamar, atrair, fazer vir a si. "B. tinha modos de avocar a si todas as naus dos Moiros". § Atribuir-se, v. g. "avocou a si o direito", Mon. Lusit. § Fazer ir a seu juízo a causa, que corria em outro. Ord. L. I. T. 58. § 2»;
    . Haja vista outrossim o Aulete Digital, em linha.         
     
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    Helder Guégués 17.10.2012 08:06

    Não é isso, não, caro André. O problema não está aí. E não é tautológico. Pelo menos na doutrina clássica, o correcto emprego das formas reflexas se, si, consigo só poderia dar-se em voz também reflexa. É o caso.
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    André 19.10.2012 14:34

    Admito sem dificuldade que possa estar enganado, até porque, ao contrário dos meus distintos contraditores não sou especialista destas matérias. 
    No entanto, noto que a minha observação não brotou da pura lógica (com a qual, concordo, a gramática nem sempre coincide), embora possa ter brotado de uma deformação profissional. O conceito jurídico de avocação deriva de apenas um dos significados de avocar indicados pelo Montexto: trata-se do acto pelo qual um órgão chama a si (nunca a outrem) uma competência que tinha delegado ou a decisão sobre uma matéria da competência normal de outro órgão. No direito é, portanto, tautológico (ou, pelo menos, supérfluo) dizer avocar a si. Basta dizer avocar, como fazem todos os textos legais, doutrinais ou jurisprudenciais (contemporâneos) respeitáveis que conheço.
    Além ou aquém do direito, "avocar a si" continua a soar-me mal, da mesma maneira que me soa mal "subir para cima", expressão que não só não é gramaticalmente incorrecta como, em alguns contextos (ia escrever montextos), pode mesmo ser imprescindível à inteligibilidade de uma frase, mas que noutras situações me parece de evitar. Ou seja: ainda que gramaticalmente boa e de pergaminhos históricos inabaláveis, a expressão "avocar a si" parece-me, na melhor das hipóteses, deselegante e nunca me sairá com naturalidade. Mas admito que isto seja matéria de gosto (pelo que não devia ter empregue a palavra "errado" no meu anterior comentário).
    Quanto às raízes de "avocar a si", sem pôr em causa o que afirma o Hélder Guégués devo dizer que encontro muito poucas utilizações, e todas elas modernas, da equivalente expressão latina avocare ad se. As expressões que surgem com muita frequência nas fontes clássicas são avocare e vocare ad se, em nenhuma das quais se verifica a tautologia que sugeri existir. Mas a minha amostra pode, claro, não ser representativa.
    Cumprimentos a ambos e muito obrigado pelas indicações que deram nas vossas respostas.
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