«Presidenta», de novo

Já se esperava

 

 

      José Mário Costa, na edição de ontem do Público, quis rebater o texto do jornalista Luís Miguel Queirós que aqui transcrevemos: «Ao contrário do que escreveu Luís Miguel Queirós na edição do passado dia 24/06 (“Assunção Esteves é presidente ou presidenta?”), “presidenta” é um registo abonado no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. Tal como, de resto, nos demais dicionários e vocabulários, portugueses como brasileiros, de referência. No primeiro caso, desde os mais antigos, como o dicionário de Moraes (“mulher que preside”, “mulher de presidente”) até aos mais recentes, como o Houaiss (“mulher que se elege para a presidência de um país”), o Aurélio (“mulher que preside”,”mulher de um presidente”) ou o da Porto Editora (“mulher que preside” e, na linguagem popular, “mulher de presidente”). No segundo caso, o registo vai dos mais recentes – como o vocabulário oficializado entre nós, o disponível no Portal da Língua Portuguesa, assim como o da Academia Brasileira de Letras – até aos mais antigos também, como o ainda reputadíssimo Vocabulário de Rebelo Gonçalves. Ou ainda na incontornável Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra (pág. 195, 1.ª edição).

      Uma generalizada atestação, pois, que confere à variante feminina de “presidente” legitimidade ao seu uso. Pode não ser o recomendado ainda pela norma culta. Ou ser de “curso restrito no idioma”, como referem Celso Cunha e Lindley Cintra, que ilustram outros femininos com similar formação, como “governanta”, “infanta” ou “parenta”. Bem diferente, e inaceitável, é a vituperação de “presidenta” não ser português.

      Pior, bem pior, são os “solarengos”, em vez de “soalheiros”, os “é suposto” e “os abusados” ou os sistemáticos “um dos que faz…”, tão repetidamente escritos e ditos nos media portugueses, a começar no PÚBLICO.

     

      P.S. – Se Luís Miguel Queirós não tivesse preferido a “opinionite” pura e dogmática, teria prestado uma melhor informação aos leitores. Bastar-lhe-ia colher os inúmeros esclarecimentos que se encontram disponíveis, por exemplo, no Ciberdúvidas. Ou respigar o que, no próprio meio linguístico do Brasil, se escreveu, muito e com sustentação séria e diversificada, depois da eleição de Dilma Rousseff, que faz questão de ser tratada por “presidenta”. Se o tivesse feito, com a ponderação devida, não escreveria que, “em termos estritamente gramaticais, tratar Assunção Esteves como ‘presidenta’ é exactamente tão arbitrário como chamar ‘presidento’ a Cavaco Silva”. Por uma simples razão: em português, a formação dos femininos faz-se a partir do masculino, e nunca o inverso.» («Sobre o “presidento” e a “presidenta”», José Mário Costa, Público, 30.06.2011, p. 38).

      O jornalista respondeu: «Consultei o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, vulgo Dicionário da Academia, e, inexplicavelmente, não vi o registo “presidenta”, que efectivamente está lá (como, de resto, seria de esperar). Diz o referido dicionário que “presidenta” se usa depreciativamente na acepção de esposa do presidente, significando ainda, no uso familiar ou popular, mulher que desempenha as funções de presidente. Agradeço, pois, esta correcção ao leitor José Mário Costa, e peço desculpa aos restantes leitores e aos autores do dicionário em causa.

      Já não estou de acordo com nenhuma das outras objecções de José Mário Costa ao texto que assinei, mas não me seria possível rebatê-las (com argumentos) no exíguo espaço de que aqui disponho.»

 

[Texto 239]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | favorito | partilhar
Etiquetas: