Dobragem de filmes

Portuguesa só de nome

 

 

      Miguel Esteves Cardoso teve a coragem de escrever o que eu já tenho afirmado: as dobragens de filmes, dada a qualidade que apresentam, têm um efeito deletério. «As dobragens dos filmes são mutilações em que se substitui o som original — a música da língua e a arte das interpretações vocais — por violentos enxertos falados em língua portuguesa, por actores que não foram escolhidos pelos realizadores dos filmes originais e são infalível e tragicamente incultos em relação à cultura-matriz, por conhecê-la a meio-gás e julgar que compreendem a língua de partida ao ponto de poder representá-la e dar um jeitinho, tornando-a portuguesa só de nome.

      Já se nota a horrenda incapacidade das crianças portuguesas ler legendas em língua portuguesa enquanto ouvem a banda sonora original em inglês ou noutra língua» («O horror», Miguel Esteves Cardoso, Público, 4.07.2011, p. 31).

      O texto, que não é irrepreensível, continua — e até termina com uma frase que Montexto aqui tem repetido (porque Miguel Esteves Cardoso nos lê) —, mas o principal da argumentação é o que fica extractado. A abundância de «certos» e «céus» e «supostos» e outros dos desenhos animados, além de disparates execráveis a que já me tenho referido, é filha da ignorância destes actores — que, se merecem e têm de trabalhar, também merecem ser repreendidos por tão mau trabalho.

 

[Texto 254]

Helder Guégués às 16:33 | comentar | favorito | partilhar
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