Regência verbal: «reservar-se»

Isto hoje pode baralhar

 

 

      A profecia cumpre-se quase sempre. No Jogo da Língua, Filomena Crespo gosta muito de avisar: «Isto hoje pode baralhar um bocadinho.» «A organização reserva-se ao direito de cancelar ou adiar o evento»/«A organização reserva-se o direito de cancelar ou adiar o evento». E a empregada de escritório, que tinha ido ali ao banco, errou. Mas Filomena Crespo quis que a concorrente ganhasse. A professora Sandra Duarte Tavares explicou: «A frase correcta é a frase b: “A organização reserva-se o direito de cancelar ou adiar o evento.” Já há algum tempo que não falávamos deste, este... hoje temos no nosso Jogo da Língua um aspecto sintáctico e há muito tempo não falávamos do mesmo, mas é sempre bom lembrar porque é um verbo que é... ahn... é usado com alguma frequência. “Reservar-se o direito” é a forma, é a estrutura sintáctica correcta. Portanto, a frase correcta é a b. E porquê? Porque este morfema se... aa... normalmente, normalmente é um pronome reflexo e tem a função sintáctica de, desempenha a função sintáctica de complemento directo. O João lavou-se. Eu lavei-me, tu lavaste-te, o João lavou-se. Esse se corresponde, tem como referência o João. Desempenha a função sintáctica de complemento directo. Mas na nossa frase, quando eu tenho o verbo “reservar-se”, esse morfema se desempenha a função de complemento indirecto. O que é que isto significa? Significa que a organização reserva — o quê? O direito de cancelar ou adiar o evento. O direito de cancelar ou adiar o evento é que é o complemento directo. Corresponde à pergunta: o quê? Responde à pergunta: o quê? Reserva o quê? O direito. E esse se — para si. Portanto, o se complemento indirecto. Ou seja, “a organização” sujeito. Reserva o quê? O direito para si. Reserva para si o direito de cancelar o evento. Resposta correcta é a frase b

      Com três linhas apenas, dir-se-ia mais e melhor. A concorrente, contudo, foi muito simpática: era difícil, «mas realmente, com a explicação da Dr.ª Sandra, chegámos lá».

 

[Texto 259]

Helder Guégués às 17:20 | comentar | favorito | partilhar
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