Variantes fonológicas

É bom lembrar

 

      Francisco Miguel Valada publica hoje no Público mais um texto sobre a língua. A primeira parte é dedicada a demonstrar, e creio que cabalmente, a ilegitimidade do vocábulo «presidenta». A segunda parte é sobre variantes como cobarde/covarde, ouro/oiro e semelhantes, ultimamente referidas, e o argumento central, não original mas bem lembrado, é o de que não se trata de variantes ortográficas mas (o autor não o escreve) fonológicas. Assim, invocá-las a propósito da trapalhada das duplas grafias no Acordo Ortográfico de 1990 revelará paixão de amador da língua, não de conhecedor abalizado.

      «Aproveito os caracteres que me restam para informar que cobarde/covarde, febra/fevra, louro/loiro, ouro/oiro e afins não são variantes ortográficas, pois a sua “diferença” não remete para a grafia, mas para certos usos da fala ocorridos num determinado período. Cobarde e covarde não foram criadas por instrumento ortográfico, mas por pronunciações (e não “pronúncias”) diferentes do ‘u’ de couard (fr. antigo para cauda); oiro e loiro coexistem com ouro e louro, mas a corruptela ‘au’ g ‘ou’ g ‘oi’ ocorreu no século XVI, porventura por influência judaica: por exemplo, na Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente, os judeus Latão e Vidal usam hoiver, coisa, oiço e usam-nas em discurso oral, não em registo escrito. Afinal de contas, o teatro é o palco da oralidade por excelência.

      Detenhamo-nos nesta ideia de indistintamente se poder usar fevra (e fêvera – J.M.Costa esqueceu-se de fêvera), covarde e oiro, quando na consulta de dicionários que J.M.Costa apresenta como referências se verifica remissão para febra, cobarde e ouro. Parte-se do princípio (e só deste) de que quem dicionarizou considerou estas entradas como as da norma-padrão, em sã convivência com outras. A fronteira prescrição/descrição é matéria delicada. Contudo, estes exemplos não são, nem de longe nem de perto, comparáveis com as facultatividades ortográficas irrestritas criadas pelo tal instrumento que nem sob coacção citarei. Muitas destas explicações estarão inclusive no Ciberdúvidas, em respostas dadas a consulentes. Consulentes, note-se. “Os” ou “as” consulentes. Consulenta, tal como presidenta, não é norma-padrão, aquilo que popularmente se chama “português correcto”» («Enta à Presidência e singularidades de uso», Francisco Miguel Valada, Público, 6.07.2011, p. 32).

 

 

[Texto 262] 

Helder Guégués às 13:46 | comentar | favorito | partilhar
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