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Linguagista

Sobre «verve»

Não brinque

 

 

      Foi na obra de Eça que aprendi, tenho a certeza, a palavra «verve». O vocábulo, que também veio de paquete do Havre, é polissémico: verve é entusiasmo e inspiração na criação artística; verve é a graça e a vivacidade características de uma pessoa; verve é sentimento de vida. Tudo isso é verve. O próprio Eça, o escritor, era animado de verve. Qual o meu espanto ao ler no Público, a propósito de Fernando Nobre, isto: «Lembram-se dos discursos cheios de verve contra os partidos, da apologia dos valores e do apelo à participação dos cidadãos na vida democrática?» Tirando aqueles deputados, muitíssimos, que chegam ao Parlamento guindados pelo caciquismo, tão vivaz agora como no século XIX, nulidades a quem, graças a Deus, jamais ouvimos uma frase, nunca mas nunca apareceu na vida política portuguesa alguém tão pouco fadado para falar em público como Fernando Nobre. Não vejo que qualquer das acepções do vocábulo tenha sido empregada com propriedade pelo autor do texto — mas disso já o ex-deputado médico não tem a culpa, antes o jornalista, que usa mal as palavras, que não lhes toma o peso.

 

[Texto 282]

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