Acordo Ortográfico

De facto

 

 

      A propósito daquele «fato» ali no texto anterior, lembrei-me, era inevitável, dos professores de Português que afirmam que vão ter de aceitar ambas as grafias quando o AOLP90 estiver a ser plenamente aplicado. Já mostrei a sem-razão que há nessas ideias, mas não queria deixar de estabelecer um símile com o ensino da gramática. Quando estiverem a ensinar a gramática do português europeu, aceitarão que os alunos redijam («produzam», como agora os professores gostam de dizer) textos que se afastem da norma gramatical da nossa variedade? Parece-me que não.

      Mas voltemos atrás, muito atrás: em 1945, também Vasco Botelho de Amaral se mostrava desconsolado ao ver que o Vocabulário luso-brasileiro não destrinçava os usos predominantes de cada uma das pátrias da lusitana fala em relação à locução «de facto»/«de fato». «Não se sabe ao certo», começava por escrever, «qual o étimo de fato (vestuário). Mas facto veio de factus. Não interessa agora discutir a admissibilidade de uns que outros étimos, de muito intêresse para deduções e complicações filológicas, mas alheios ao propósito das presentes notas. O que vale a pena acentuar é que o primeiro vocábulo não tem nada que ver com o segundo, isto é, facto português e fato brasileiro (no sentido de facto) não se ligam nem etimológica nem semânticamente a fato (vestuário, rebanho, etc.). ¡¿ Como, pois, registar apenas fato, e prender a esta forma única a locução de-facto?!

      Se lá se fala mais no terno do que no fato, e, portanto, as confusões são menores quando o c desaparece da referida palavra; cá distinguem-se bem dições como esta por exemplo: “de-facto vi-o de fato novo”.

      Nem os Portugueses podem obrigar os Brasileiros a dizer facto, nem os Brasileiros podem querer que os Portugueses digam fato, não se referindo ao vestuário masculino. Muito bem. Continue-se lá a dizer de fato e cá de-facto, que a língua portuguesa nada perde com isso» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 279).

 

[Texto 29]

 

Helder Guégués às 10:36 | comentar | favorito
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