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Linguagista

Léxico: «descarinho»

Português diferente

 

 

      O leitor Rui Almeida quis partilhar comigo este excerto de uma obra da escritora e tradutora brasileira (mas nascida em Lisboa, onde a família vivia então exilada) Tatiana Salem Levy: «Não comia mais do que umas torradas com manteiga e um copo de leite com café, estava enfraquecendo, e os parentes diziam que só podia ser descarinho: ele está descarinhado, repetiam, pensando em mandá-lo de volta à Turquia no próximo navio. Mesmo os que moravam no Brasil há algum tempo ainda misturavam o português com a língua materna. Por isso diziam descarinho, que é a palavra deles para exprimir saudades» (A Chave da Casa, Tatiana Salem Levy. Lisboa: Livros Cotovia, 2007, p. 71).

      Descarinho... Bonita palavra. Camilo usou-a. Descarinho é falta de carinho, pois claro, mas também sevícias, maus tratos; desumanidade, rudeza, crueldade. A autora é de uma família judia. Agora leiam: «Era grande o apego e o descarinho que Portugal exercia no espírito daqueles descendentes. O sr. Joel estranhou aquele termo, descarinho, e pediu explicações: “é a palavra que usamos com frequência para exprimir a nostalgia que temos de alguém ou de alguma coisa. A mãe que tem o filho ausente diz que está “descarinhada”, privada do carinho, do seu filho”» (Judeus em Portugal: o Testemunho de 50 Homens e Mulheres, dir. José Freire Antunes. Versalhes: Edeline, 2002, p. 112).

 

  [Texto 3185]


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