«Panteonizáveis»!

Um horror, mas já era previsível

 

 

    «Os primeiros “panteonizáveis” neste quadro que se segue ao enaltecimento da figura de Camões, continua o historiador, são inseparáveis de uma visão que acredita no progresso. Procura-se enaltecer “os que melhor exprimiam um pulsar colectivo, não tanto os políticos e os militares, mas, sobretudo, os intelectuais”. Honraram-se, então, nos Jerónimos Alexandre Herculano, João de Deus e o próprio Garrett. [...] “É curioso ver que o Estado Novo, que tanto enaltecia a história, não ‘panteoniza’ ninguém. Os que escolhe vêm já de uma sepultura nobre”, diz Neto [Maria João Neto, professora de História de Arte da Faculdade de Letras de Lisboa]. [...] Ainda que o paradigma do mérito literário nunca tenha deixado o panteão — Sophia está aí para o confirmar — a ida de Amália para Santa Engrácia, a que se seguirá a de Eusébio, reflecte, na opinião de Catroga [Fernando Catroga, catedrático da Universidade de Coimbra], um “alargamento dos critérios”, passando a abranger “personalidades produtoras e produtos da cultura de massas”. Têm, continua, “um forte poder de mediatização e de transformação icónica e iconolátrica e dir-se-ia que já estão panteonizados, mesmo antes de entrarem em qualquer panteão”» («A antiga fábrica de sapatos é uma casa de heróis mal-amada», Lucinda Canelas, Público, 12.01.2014, pp. 12-13).

 

  [Texto 3843]

Helder Guégués às 07:14 | favorito
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