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Linguagista

ISCSP — isquecepu?

A experiência

 

      «Vem este arrazoado todo à liça porque ia escrever sobre a imbecilidade dos que se afligiram com a ida de Passos para o ISCSP – e agora não me queria enganar na sigla para ser como aqueles que dizem isquepe, ou isquecepu numa versão mais saudosista da nossa administração colonial, seja lá porque motivo for, sendo certo que ISCSP, depois de Expo, IKEA e wi-fi, é a coisa que tem mais pronúncias alternativas – mas já disseram tudo o que eu ia dizer sobre o caso, e melhor, o Carlos Reis no Facebook (trazendo John Major e Delors à baila) e o João Miguel Tavares no Público realçando que todas as reações são reações de ódio a Passos» («Porto Aero», João Taborda da Gama, Diário de Notícias, 11.03.2018, p. 56).

      Nunca antes presenciara hesitações na pronúncia do que me parecia uma sigla, mas eis que, no sábado, João Taborda da Gama me veio desassossegar. Estranhei, mas também me limitei a encolher os ombros. Precisava, eu bem sabia, de pegar num indígena e fazê-lo pronunciar a palavra. Não foi preciso violentar nenhuma criatura, pois a Providência, às 17h17 de ontem, pela boca de uma jornalista da Antena 1, proporcionou-me a experiência. Ora bem, a jornalista apresentou o entrevistado, Marcos Farias Ferreira, «especialista em Rússia», e lançou — cuspiu, diria — um «isquecepu», mas com uma hesitação lá pelo meio. Portanto, não durou muito tempo aquele meu encolher de ombros: há mesmo falantes que vêem em ISCSP, não uma sigla, mas um acrónimo. Só no fim, ai estas cabeças, é que se lembrou de desdobrar a sigla o acrónimo, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Assim, se um dia destes ouvir alguém falar no Febi, já saberei que se refere à agência de segurança norte-americana, ou se falarem no Axe, também não me escapará, pese a subtileza, que se refere à antiga Alta Autoridade para a Comunicação Social. A propósito: na definição de sigla, bem pode o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora actualizar os exemplos, estes mesmos FBI e AACS, pois esta última é uma entidade extinta em 2005, tendo sido criada na mesma data a ERC, ou será a Erque?

 

[Texto 8913]

M, Ma, UA

É esperar

 

      «Simbolizado, entre os estudiosos das Ciências da Terra, pela sigla Ma, o milhão de anos é convencionalmente aceite como unidade de tempo. Nada menos do que dez mil séculos, onde cabe mil cento e quarenta vezes a História de Portugal, um milhão de anos é uma eternidade no horizonte temporal das nossas vidas, mas uma ínfima migalha no tempo da Terra, actualmente estimado em 4540 Ma» («O tamanho de um milhão», Galopim de Carvalho, De Rerum Natura, 29.03.2017). «Acelerador de investimento rende 22M€» (Raquel Madureira, Destak, 31.03.2017, p. 5). «Pensa-se que se localize atualmente a 500 UA do Sol. O UA é a unidade astronómica correspondente a 150 milhões de quilómetros (distância da Terra ao Sol)» («À procura do nono planeta», Maria Filomena Silva, Audácia, Maio de 2017, p. 17).

      O que não está consagrado hoje pode vir a sê-lo no futuro. Sabe-se lá. Vejam o que encontram das três no Dicionário de Siglas e Abreviaturas da Porto Editora: apenas UA («Unidade Astronómica»). Esta é, aproximadamente, a distância média entre a Terra e o Sol, 149 597 870 700 m. O M para milhão começou, talvez, nos jornais gratuitos (falta de espaço?), mas não acabou aí. O Ma, usado em geociências, em que era necessária uma escala maior, disfarça muito bem, porque parece de «milhão de anos», mas é, na verdade, de mega age. O que é pena é os jornalistas, de maneira geral, escreverem com os pés, e fica tudo pegado, números e siglas/símbolos. E claro que os directores e editores não os podem ajudar — porque também são jornalistas.

 

[Texto 7653]