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Linguagista

O que se escreve por aí

Que raio de maioria é essa?

 

      «O Papa é eleito por maioria de dois terços mais um. Se nenhum cardeal vencer, os boletins são queimados com fumo negro. O fumo branco e o toque do sino indicam que foi escolhido o Papa» («Eleição do novo Papa», Paulo João Santos e Secundino Cunha, Correio da Manhã, 14.04.2025, p. 24).

      E essa maioria acaso existe? Nem na terra nem no céu. Confusões. A maioria de «dois terços mais um» é um non sequitur jurídico e matemático — não existe tal maioria, e não faz nenhum sentido neste contexto. A maioria de dois terços é já, por definição, uma maioria qualificada, superior à maioria absoluta (metade mais um). Não se soma nada aos dois terços. O que a constituição apostólica Universi Dominici Gregis, promulgada por João Paulo II em 1996 e posteriormente modificada por Bento XVI em 2007, estabelece é o seguinte: «Praeterea statuimus ut ad validam electionem Romani Pontificis duae saltem ex tribus partibus suffragiorum omnium Cardinalium praesentium requirantur» (n.º 62). Ou seja: «Estabelecemos, além disso, que para a eleição válida do Romano Pontífice são requeridos pelo menos dois terços dos votos de todos os Cardeais presentes.» É mais uma das tais confusões.

[Texto 21 193]

 

«Canábis», finalmente!

Merecia celebrar-se com champanhe

 

      Estava logo bem patente na chamada de primeira página do Público de ontem: «Canábis medicinal rende milhões a ex-governante do PSD», e repetia-se, claro, no artigo de Paulo Curado nas páginas 2 e 3. Ao fim de anos a escreverem, teimosa e abstrusamente, cannabis, resolveram enveredar pelo bom caminho. É uma decisão que tem mais importância, e não meramente simbólica, do que possam julgar. (Espero que seja, mais do que uma decisão isolada, um movimento, uma viragem: a seguir poderá ser, e usaram-na na edição de ontem, nacionalizarem derby. Está mais do que na hora.)

[Texto 21 148]

Erros de sempre e para sempre

Moeda ao ar?

 

      Quando devem escrever «à vontade», escrevem «à-vontade»; quando é «à-vontade» que deviam escrever, é «à vontade» que lhes sai. «Armando Martins recebe os jornalistas à entrada do museu como se estivesse entre convidados na sua própria casa. O à vontade faz sentido, já que é no museu que é inaugurado hoje que vai passar mais tempo a partir de agora e é nele que mostra algumas das pinturas e desenhos com que costumava conviver no dia-a-dia, em ambiente doméstico» («Um museu para uma colecção privada que terá um hotel a pagar-lhe as contas», Lucinda Canelas, Público, 22.03.2025, p. 34).

[Texto 21 077]