15
Jan 19

Léxico: «tardo-renascentista/falsetista/violone»

Logo uma tripla

 

      «A prestação da Cappella dei Signori [agrupamento musical], iniciada com uma impressionante versão, em registo grave, do moteto O bone Jesu, de Pero de Gamboa, caracterizou-se pelo uso exclusivo de vozes masculinas (incluindo falsetistas), apoiadas por fagote, violone e órgão (à maneira tardo-renascentista, e não como baixo contínuo); embora com presenças algo desiguais, os cantores lograram formar, debaixo da direcção cuidada de Ricardo Bernardes, uma sonoridade coesa, fosse na fusão harmónica, fosse na precisão dos ataques» («Música com letra em latim, música com dança: novidades antigas, tradições modernas», Manuel Pedro Ferreira, Público, 15.01.2019, p. 33).

      Ora, no dicionário da Porto Editora, temos tardo-gótico e tardo-medieval, e nada mais. E também não encontramos nele falsetista. Quanto a violone, bem sei que é italiano — mas figura como vocábulo estrangeiro no VOLP da Academia Brasileira de Letras. Percebe-se porquê. «Antico strumento della famiglia delle viole, considerato l’antenato dell’attuale contrabbasso: il fondo è piatto, e termina in alto come quello della viola da gamba», lê-se no Treccani.

 

[Texto 10 592]

Helder Guégués às 21:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «desovante»

Talvez desplante

 

      «A população de sardinhas partilhada por Portugal e Espanha, o chamado stock ibérico, vive uma situação semelhante à da população portuguesa de humanos: uma população de adultos estável, mas com cada vez menos juvenis, pondo em causa a renovação das gerações. [...] Os bacalhaus juvenis não estão em alta, mas a chamada biomassa desovante está em níveis elevados e há uma estabilidade do stock num nível elevado» («Sardinha em crise. Stock no mar é menos de metade daquilo que devia ser», Nuno Guedes, TSF, 15.01.2019, 10h22).

      O dicionário da Porto Editora atira-me com nove hipóteses: «Queria pesquisar derivante, descante, descorante, desplante, dessoante, destoante, desviante, detonante, devorante?» Não, era mesmo desovante. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✓.

 

[Texto 10 591]

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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14
Jan 19

Léxico: «ribate»

Tudo ao abandono

 

      A propósito do Algarve: em finais do ano passado, o PCP quis saber se o Governo tinha verbas inscritas no Orçamento do Estado para intervir no Rîbat da Arrifana, as ruínas da fortaleza-mosteiro fundada por Ibn-Qasî no século XII no litoral do concelho de Aljezur, um monumento nacional que, como tantos outros, está ao abandono e a necessitar de trabalhos de limpeza, desmatação, consolidação e restauro. (Como estava, por exemplo, o Forte de Santo António da Barra, onde o Botas se esmerdalhou ao mandar-se à bruta, como parece que sempre fazia, para cima de uma cadeira de lona.) Rîbat é como se vê escrita talvez a maioria das vezes, mas também ribāt, mais próximo da palavra árabe transliterada, ribāṭ. Pois bem: por que diacho não se usa o aportuguesamento ribate, que vejo em alguns vocabulários, mas não no dicionário da Porto Editora? Isto a língua é como os monumentos nacionais — aliás, a língua é ela própria património intangível ­—, louvada, mas descurada.

 

[Texto 10 590]

Helder Guégués às 23:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «tuvenã/viochene»

Mais falta de material

 

      As tais lajetas vêm da Quinta do Escarpão, em Ferreiras (Albufeira), de uma pedreira comprada em 2017 pela Tecnovia, uma empresa do sector da construção, pedreira que vende britas, areias, pó de pedra e tuvenã. Ah, não sabem o que é tuvenã, seus incultos... Embora quase toda a gente o escreva assim — aportuguesado, como deve ser —, vem do francês tout-venant. Ora, esta palavra traz-me à mente outro caso semelhante: viochene. Só pretensiosos e desamantes da língua escreverão vieux chêne. Trata-se de uma substância corante, que eu conheço muito bem, usada para escurecer a madeira, deixando-a com um tom semelhante ao da madeira de carvalho velho. Pois bem, o dicionário da Porto Editora, infelizmente, ignora ambos os termos.

 

[Texto 10 589]

Helder Guégués às 23:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «lajeta»

De norte a sul

 

      Atrasos nas obras de requalificação da frente ribeirinha de Olhão por falta de material: não há cubos de Monchique nem lajetas de Escarpão, estas usadas na pavimentação de grande espaços como praças, por exemplo, por poderem suportar cargas de tráfego pesado. Pois bem, não é só no Algarve, ou em Olhão, concretamente, que faltam aqueles materiais: o dicionário da Porto Editora também não tem lajeta.

 

[Texto 10 588]

Helder Guégués às 22:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «carbocerâmico»

Inovações fora dos dicionários

 

      «Além da imensa redução de libertação de poeira, os iDisc [da Buderus Guss, subsidiária da Bosch] conseguem ser mais eficazes e, sobretudo, resistir melhor ao uso intensivo, revelando um comportamento similar ao dos mais sofisticados, mas onerosos, discos carbocerâmicos» («iDisc. Travam melhor, duram mais e poluem menos», Alfredo Lavrador, Observador, 6.12.2017, 20h31).

      Quem acompanha minimamente as novidades do mundo automóvel já se deparou com — e invejou — este tipo de travões, os carbocerâmicos. Por acaso, a última vez que li a palavra foi a propósito do Seat Leon ST Cupra 4Drive preparado pela Siemoneit Racing, que fica com 520 cv de potência, mais do que o novo Audi RS4 ou o Mercedes-AMG C63 S. Aos dicionários é que carbocerâmico ainda não chegou.

 

[Texto 10 587]

Helder Guégués às 20:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «transbordo»

Outros transportes

 

      «Outra novidade deixada pelo autarca é de que as obras no Metro de Lisboa não vão implicar maior tempo de viagem para quem vai de Odivelas para o centro da cidade. O autarca diz que tem garantias do Governo de que parte das ligações, sobretudo nas horas de ponta, vão seguir diretamente para Lisboa, sem necessidade de transbordo, mesmo depois da abertura da linha circular» («Recuperada grande parte dos azulejos do Mosteiro de Odivelas», Rádio Renascença, 14.01.2019, 9h33).

      Serve perfeitamente, embora o caso seja outro, para vermos que a definição de transbordo no dicionário da Porto Editora está errada: «passagem de passageiros ou mercadorias de um barco ou comboio para outro». Então não lemos e ouvimos regularmente que a CP faz transbordo, em certos troços e circunstâncias, dos seus passageiros em autocarro?

 

[Texto 10 586]

Helder Guégués às 15:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar

Léxico: «encarceramento/desencarceramento»

Vejamos mais em pormenor

 

      «Uma colisão entre dois veículos no IC2 causou, esta segunda-feira, a morte a um jovem de 19 anos em São João da Madeira, tendo o trânsito ficado cortado durante três horas no sentido Norte-Sul, indicaram os bombeiros locais. [...] “Um dos condutores ficou em situação de encarceramento de tipo 2, o que significa que a vítima ficou compactada dentro do carro”, explicou o comandante [dos Bombeiros Voluntários de São João da Madeira, Normando Oliveira]» («Jovem de 19 anos morre em despiste no IC2», Rádio Renascença, 14.01.2019, 12h13).

      É muito curioso (e anómalo) que o dicionário somente no verbete desencarceramento se refira explicitamente à «libertação de ocupantes retidos no interior de uma viatura sinistrada», mas não no verbete encarceramento. Não será o único problema: não há também operações de desencarceramento em helicópteros e aeronaves ligeiras, por exemplo? Ora, não se trata de viaturas. Mais: está o termo viatura bem definido? Vejamos: «qualquer veículo para transporte de pessoas ou coisas, carro». Estão a dizer-nos que «viatura» é sinónimo de «carro»? Então se for um camião já não estamos perante uma viatura? Finalmente, quanto aos tipos de encarceramento, é a primeira vez que o vejo referido, mas é mesmo assim: encarceramento mecânico, encarceramento físico de tipo I e encarceramento físico de tipo II, lê-se nesta publicação da Escola Nacional de Bombeiros.

 

[Texto 10 585]

Helder Guégués às 14:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar