17
Fev 20

Léxico: «cuidados paliativos»

É aproveitar agora

 

      «Também a Ordem dos Enfermeiros (OE) pede que esta discussão não se antecipe ou sobreponha à necessidade de assegurar uma rede nacional de cuidados continuados e paliativos “eficaz e de fácil acesso”. E apesar de igualmente se posicionar contra todos os projectos de lei em discussão, deixa alguns conselhos aos partidos, para que possam melhorar os diplomas. Desde logo, critica a ausência de enfermeiros no processo» («Pareceres sobre morte assistida dividem-se entre o silêncio e o “chumbo”», Liliana Borges, Público, 17.02.2020, p. 12).

      Também me parece por demais evidente que legalizar a eutanásia é inconstitucional, mas deixemos o debate para os especialistas. Voltemo-nos para a lexicografia. No dicionário da Porto Editora, se encontramos as expressões cuidados continuados, cuidados intensivos, cuidados intermédios, sobre cuidados paliativos, de que ouvimos agora falar a cada hora, nada se diz. É verdade que em paliativo temos uma boa definição, mas não apenas não está no sítio certo, como precisa de uma nova redacção para servir.

 

[Texto 12 828]

Helder Guégués às 10:45 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Léxico: «butelo | palaio | paiola | catalão»

Ouçam os especialistas

 

      «Seja como for, manda a tradição brigantina que se coma o butelo (o estômago ou a bexiga do bicho, recheado de carnes, ossinhos — os do espinhaço, de suã, além de costelinhas — e cartilagens) com casulas, ou seja, a vagem seca e inteira do feijão, que é preciso demolhar antes de cozer, como se de feijão se tratasse. [...] Na Taberna do Carró, em Moncorvo, o palaio, ou butelo (reparem como se inverte a designação) é cozido em água e louro e pode ser desmanchado sobre um arrozinho de feijão branco, maravilhoso: o momento em que o enchido se desmonta sobre o arroz é uma espécie de revelação» («O butelo, ou a contemplação», Francisco José Viegas, «Sexta»/Correio da Manhã, 24-30.01.2020, p. 45).

      Esta definição de butelo devia servir para enriquecer, ou mesmo corrigir, a que vemos no dicionário da Porto Editora: «enchido transmontano feito com os ossos e as cartilagens das costelas e das vértebras do porco, geralmente misturados com sal, alho e louro; bulho». Também a simples remissão, naquele dicionário, de palaio para paio tem de ser corrigida. Não é o mesmo. E onde está a paiola, onde? E o catalão?

 

[Texto 12 827] 

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Léxico: «sequestro»

Ainda não foi capturada

 

      «O Governo vai pagar até 150 euros por ano e por hectare aos proprietários florestais que tenham espécies que façam o sequestro de carbono» («Governo vai pagar por árvores que capturem carbono», José Milheiro, TSF, 12.02.2020, 10h03).

      Imagino que, mais tarde ou mais cedo, os dicionários se vejam obrigados a dizer alguma coisa, não?

 

[Texto 12 826]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «masturbador»

Que pudibundaria

 

      «O Roth não passa de um sacana de um masturbador, um idiota, pessoal, metido na retrete a bater punhetas» (Operação Shylock: Uma Confissão, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2019, p. 279).

      No dicionário da Porto Editora não vamos encontrar masturbador. Seja como for, em nenhum dicionário se regista outra acepção do termo: o aparelho eléctrico com forma de manga, que vibra e é usado como estímulo do órgão sexual masculino. À venda nas boas casas da especialidade. E agora na Internet. Aparelho eléctrico? Pode não ser: «Sabe o que é o Tenga Egg? Ao que tudo indica, o mais simples, discreto e eficaz masturbador masculino alguma vez inventado. Uma obra-prima cheia de elasticidade, criada em 2008 por uma empresa japonesa da especialidade, a Tenga, que entretanto já replicou o engenho para produzir várias versões» («Ovos, “plugs” e vibradores. Playbox, uma caixa para brincar como gente grande», Mauro Gonçalves, Observador, 15.02.2020, 16h36).

 

[Texto 12 825]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Meu rico latim

Antes permanecesse ignorada

 

      Uma turma, acompanhada do biólogo Miguel Porto, de uma escola foi fazer uma visita ao campo para observar diversas espécies, ali para os lados do Poceirão, Setúbal. Vai daí — tropeçaram com espécimes da Elatine brochonii, planta que não se sabia que existia em Portugal. O que pretendo dizer? Elatine não tinha de estar nos dicionários? Bem, mas não é por isso que escrevo este texto. No programa Código Postal, na rádio Observador, falaram desta descoberta. O jornalista Miguel Viterbo Dias pronunciou várias vezes — desafiado pelos colegas de programa — o nome científico da planta. Até parecia que os outros o consideravam autoridade na matéria. Pois bem, nem uma vez o pronunciou bem. Esta pequenina planta foi descoberta em 1883 numa lagoa de Saucats, em França, pelo advogado — e botânico nos tempos livres, ou ao contrário, não sei ­— Brochon (1833-1896). O nome foi-lhe dado, em homenagem ao seu descobridor, por Clavaud (1828-1890). Vamos ao que interessa: nunca a palavra brochonii, latim científico, se podia pronunciar como aquele jornalista o fez repetidamente, /brocsoni/. Não, não: aquele dígrafo era em latim equivalente ao χ (qui) grego; logo, o h seria aqui consoante ociosa.

 

[Texto 12 824]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | favorito
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Léxico: «supermicrocirurgia | linfedema»

Não foi inventado agora

 

      «É preciso mais do que uma mão firme para ligar vasos com um diâmetro entre 0,3 e 0,8 milímetros. A tarefa ainda que muito difícil é possível e hoje até já conta com o apoio de avançados microscópios e instrumentos. Mas para este tipo de “supermicrocirurgia” qualquer ajuda para optimizar os resultados é bem-vinda. [...] O termo “supermicrocirugia” existe, não foi inventado agora. Mas a maior parte das pesquisas sobre o tema devem levar o leitor curioso até ao tratamento cirúrgico da linfedema — um inchaço (edema) causado pela acumulação de líquido linfático (linfa) nos tecidos da superfície do corpo» («Robô ajuda cirurgião a ligar vasos minúsculos», Andrea Cunha Freitas, Público, 12.02.2020, p. 33).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não os vamos encontrar.

 

[Texto 12 823]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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Léxico: «hiperfiltrar | hiperfiltração»

Desconhecem

 

      «“O excesso de peso e o aumento de volume de sangue levam a que o rim tenha de hiperfiltrar. Se esta hiperfiltração se mantiver ao longo do tempo, leva a alterações estruturais do rim e a que haja um processo progressivo de lesão renal, que pode conduzir depois a doença renal crónica ao final de alguns anos”, explica a investigadora [Liane Correia Costa] ao PÚBLICO» («Consumo de álcool na gravidez tem efeitos negativos nos rins das crianças», Ana Maia, Público, 12.02.2020, p. 18).

      Nem sei como é que alguém possa optar por dizer «ao final de alguns anos» em vez de «ao fim de alguns anos», mas paciência.

 

[Texto 12 822]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Fev 20

Léxico: «antitumoral»

O mesmo direito

 

      «Grutas paleolíticas, grutas submarinas e minas abandonadas são uma herdade para micro-organismos que sobreviveram às mudanças no seu habitat durante milhares de anos e que, hoje, podem esconder a chave para a elaboração de antibióticos e antitumorais» («Bactérias do Paleolítico, a medicina do futuro?», Rádio Renascença, 12.02.2020, 6h55).

      Então: antibiótico, antiemético, antiepiléptico, antipirético e um largo etc., todos nos dicionários, mas antitumoral foi esquecido por muitos.

 

[Texto 12 821]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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