19
Jul 19

Léxico: «coma induzido»

Vamos prevenir

 

      «O eurodeputado do PS André Bradford, que estava em coma induzido desde dia 8 deste mês, faleceu esta quinta-feira no Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, revelou fonte do PS/Açores» («Morreu eurodeputado do PS que estava em coma há 11 dias», Jornal de Notícias, 18.07.2019, 14h38).

      Ouve-se cada vez com mais frequência a expressão coma induzido, que poucos dicionários registam. O leigo que ouvir isto da boca de um médico vai com certeza alarmar-se se tiver em mente, por exemplo, a definição de coma no dicionário da Porto Editora: «MEDICINA estado de inconsciência que pode assumir diferentes graus de gravidade». Ora, o coma induzido não passa de uma sedação farmacológica profunda.

 

[Texto 11 809]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «tubo de fogo»

Ou não se saberá

 

      «O caso remonta a abril de 2015, quando o jovem de 20 anos, que estava a lançar foguetes da visita pascal no jardim de uma casa, na freguesia de Constance, foi atingido pelo rebentamento de um tubo de fogo, tendo tido morte imediata» («Pais de jovem morto sem indemnização», Jornal de Notícias, 19.07.2019, p. 16).

      Na altura, nas notícias falava-se em balona, que é o mesmo engenho pirotécnico, mas ambos deviam estar dicionarizados. (Era um técnico credenciado, um fogueteiro, e pôs a cabeça à frente do tubo de fogo a que já acendera o rastilho? Com 20 anos, técnico credenciado...)

 

[Texto 11 808]

Helder Guégués às 09:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «leme»

E as dobradiças?

 

      Há diversos tipos de dobradiças. Olho ali para a porta da minha sala e concluo que são dobradiças de leme, três em cada porta (é de duplo batente). De leme, naturalmente, porque têm um leme — que a Porto Editora já deduziu que não é nenhuma daquelas duas coisas que diz no verbete deste vocábulo. Aliás, faltam-lhe várias acepções. O leme é precisamente a peça central, o ferro da dobradiça macho que encaixa na dobradiça fêmea, cada uma das quais, no caso da porta da minha sala, está fixada à porta e ao aro com seis parafusos. Ou seja, há trinta e seis parafusos a impedirem que a porta caia. Estas dobradiças são muito diferentes, por exemplo, das dobradiças de copo das portas dos móveis da cozinha, ou das dobradiças simples de latão de um pequenino guarda-jóias com embutidos de madrepérola que vejo ali no aparador.

 

 [Texto 11 807]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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18
Jul 19

Pontuação e jornais

Menos palavras

 

      Só mais um exemplo, para que o leitor, sem deixar de aprender qualquer coisa, não se aborreça nestes tempos tão lúdicos. «Depois de tudo o que ouvi, votaria nela [em Ursula von der Leyen] sem hesitação. Foi o que fizeram, aliás, os deputados portugueses do PS, PSD e CDS (ao contrário dos do PAN, BE e PCP, numa espécie de espelho da caseira geringonça), o que já levou Rui Tavares a considerar a posição do PS, bem como a do PSOE que foi igual, como uma traição» («Ursula: a surpresa da normalidade», Henrique Monteiro, Expresso Diário, 17.07.2019).

      É uma simples vírgula, mas ela faz ali falta: «posição do PS, bem como a do PSOE, que foi igual». Sem vírgula, pode levar a pressupor-se que o PSOE tem várias posições, uma das quais, esta, foi igual à do PS. E se quiséssemos poupar palavras, sem comprometer a compreensão, assim: «a posição do PS, e a do PSOE, que foi igual, uma traição». Escrever muito é fácil.

 

[Texto 11 806]

Helder Guégués às 13:48 | comentar | favorito
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Ortografia e jornais

Henrique, o Inverificador

 

      Vamos agora para coisas mais miúdas. «A este propósito da diversidade, bastaria ver a votação de terça-feira para a detetarmos. Gente de todas as etnias, vestidas de formas que iam do ‘ultraformal’ ao ‘estilo campista’, temos representantes. Até para o mau-gosto piroso, como Berlusconni, que com a mão direita entrapada fazia questão de distribuir sorrisos e apertos de mão (com a esquerda)» («Ursula: a surpresa da normalidade», Henrique Monteiro, Expresso Diário, 17.07.2019).

      Henrique Monteiro, salta à vista, é muito mais cuidadoso na escrita do que muitos outros jornalistas — mas também descura certos aspectos, como, neste caso, o nome de um político. Como jornalista, não é o que devia fazer, verificar? É Berlusconi. E em que dicionário viu Henrique Monteiro a grafia «mau-gosto»? Aqui entram os dicionários: porque é que não registam, no verbete gosto, a subentrada «bom gosto» e «mau gosto»? Sim, há outras: «bom humor»/«mau humor», etc. Diga-se também, vem mesmo a propósito, que não há em Portugal, do que conheço, jornal que, na edição em linha, aplique tão indecorosamente mal as regras do Acordo Ortográfico de 1990 como o Expresso. Se respeitassem, como deviam, os leitores, deixavam hoje mesmo, agora, de aplicar a execrável nova grafia e dedicavam-se a reaprender as regras do Acordo Ortográfico de 1945. Demoraria, mas o progresso seria mais seguro. Teria de haver novo período de transição, agora para trás.

 

[Texto 11 805]

Helder Guégués às 11:52 | comentar | favorito
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Léxico: «rádio-escuta»

Mas existe

 

      «“A sua localização foi concebida graças à radio-escuta das comunicações alemãs, que apesar de criptografadas pela máquina Enigma, foram descodificadas em Bletchley Park por uma equipa de que o mais proeminente elemento foi Alan Turing. Tratava-se de informação de tal modo secreta que a sua fonte era indicada nos documentos que se produzissem como ULTRA”, explica José António Barreiros ao DN» («Descodificação da Enigma apanhou espião português na II Guerra. E foi um problema para a diplomacia», Céu Neves, Diário de Notícias, 17.07.2019, 19h47, itálico meu).

      Outra palavra que os lexicógrafos fingem que não existe. Uma peneira muito opaca, mas a realidade impõe-se sempre com mais força.

 

[Texto 11 804]

Helder Guégués às 10:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Os seguidores do pastor Russell no dicionário

Nessa não me apanham

 

      «Helena Strzelecka, uma polaca do mesmo grupo, recordou uma ocasião em que foi com Gerda ao bunker recolher o corpo de uma testemunha de Jeová de uma cela» (Se Isto é Uma Mulher, Sarah Helm. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2015, p. 272).

      Não é teatro: sofri mesmo uma comoção ao ver que o dicionário da Porto Editora grafa com hífen o nome dos membros ou seguidores do movimento cristão Testemunhas de Jeová, fundado nos EUA pelo pastor Charles Taze Russell (na definição, escrevem «Russel», erro muito comum). Não sabia desta perfídia. Tenho duas soluções: ou adopto (adoto), em parte e neste aspecto (aspeto), o AO90, e escrevo como ali acima, ou, como mais informalmente se diz há décadas (e o dicionário da Porto Editora ainda não regista), escrevo jeová.

 

[Texto 11 803]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | favorito

Léxico: «doença dos pezinhos»

Demasiada e inútil dispersão

 

      «Mais de 42.100 crianças nasceram no primeiro semestre do ano em Portugal, um recorde dos últimos três anos para igual período, segundo dados do Programa Nacional de Diagnóstico Precoce, conhecido como “teste do pezinho”» («Nasceram mais 42 mil bebés nos primeiros seis meses do ano», Rádio Renascença, 18.07.2019, 7h48).

      Aqui acontece algo parecido: no dicionário da Porto Editora, doença dos pezinhos remete simplesmente para paramiloidose, onde se descreve a doença — mas num texto de apoio da Infopédia ficamos a saber que também tem o nome de polineuropatia amiloidótica familiar (eles escrevem com maiúsculas, mas isso foi antes do uso pleno do cérebro). Mas que esquizofrénica dispersão é esta, que fim persegue?

 

[Texto 11 802]

Helder Guégués às 08:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito