06
Jul 15

Regência verbal: «aportar»

Bravo estrago

 

      «Mais de cinco séculos depois de os navegadores portugueses Diogo Cão (1485) e Bartolomeu Dias (1487) terem aportado em Walvis Bay, naquela que é hoje a principal cidade portuária do país, Namíbia e Portugal querem voltar a descobrir-se» («Empresas do Norte são exemplo que Namíbia quer aproveitar», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 4.07.2015, p. 19).

   Sérgio Pires: «terem aportado a Walvis Bay». A regência deste verbo é dupla: aportar e aportar a. «Àquela ilha aportámos que tomou/O nome do guerreiro Santiago,/Santo que os Espanhóis tanto ajudou/fazerem nos Mouros bravo estrago» (Os Lusíadas, Canto V, 9). «Passaram-se quase dois anos desde que empreendi esta tarefa, trazer até mim o que me fora dado viver em terras de França, mais propriamente em Paris, há quase vinte anos, já que aí aportei em sessenta e nove e estamos agora em noventa» (Palingenesia ou o Estado e o Processo do Romance, Silva Carvalho. Lisboa: Fenda, 1999, p. 234).

 

[Texto 6022]

Helder Guégués às 16:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
03
Jul 15

Regência do verbo «preferir»

Preferia cortar um braço

 

      «O facto de Tsipras já ter dado a entender que se demitiria se vencesse o “sim”, e 
de o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, ter assegurado que faria o mesmo de um modo directo (“Preferia cortar um braço do que aceitar um mau acordo”, disse), fazem com que esta pergunta tenha outra consequência: quem vota “sim” sabe que deverá estar
 a reeleger Samaras para primeiro-ministro em eleições que seriam marcadas dentro de 30 dias» («Na batalha do “oxi” e do “nai” joga-se o futuro da Grécia», Maria João Guimarães, Público, 3.07.2015, p. 2).

   Esta também é uma batalha perdida, pois se até jornalistas, que deviam ter mais consciência linguística, escrevem desta maneira, no dia-a-dia é o descalabro. O verbo preferir exige dois complementos, um sem preposição e o outro com a preposição a: «Preferia cortar um braço a aceitar um mau acordo.»

 

[Texto 6016]

Helder Guégués às 09:27 | comentar | ver comentários (7) | favorito
19
Mai 15

Regência do verbo «ansiar»

Menos dura que os bastões de aço

 

   «“Anseio que se apurem as responsabilidades criminais e disciplinares. Os polícias que agiram da forma que agiram em Guimarães não têm categoria para servir a PSP. E o apuramento de responsabilidades disciplinares pode levar ao seu afastamento da corporação”, antecipa [juiz Rui Rangel]. Para Rui Rangel, o vídeo do espancamento não deixa margem para dúvidas: o que sucedeu foi “um manifesto abuso de poder que não honra a polícia nem o Estado de direito”» («Centenas de mensagens de indignação nas redes sociais», Ana Henriques, Público, 19.05.2015, p. 40).

    No sentido de «desejar ardentemente», Sr. Juiz, o verbo ansiar pede complemento indirecto com a preposição por. Dura grammatica sed grammatica.

 

[Texto 5860]

Helder Guégués às 10:56 | comentar | favorito
15
Abr 15

Regência do verbo «gostar»

Já era

 

      «Mobilizaram esforços, criaram petições e entregaram uma carta à Administração Central do Sistema de Saúde com milhares de assinaturas, já que um valor a menos pode ser o suficiente para que qualquer um destes jovens fique o resto da vida a trabalhar numa especialidade que não goste» («Finalistas de Medicina rejeitam mudança de bibliografia para exames», Andreia Filipa Novo, Jornal da Tarde, RTP1, 14.04.2015).

    O verbo gostar pede a preposição de. Dantes sabia-se isto; agora, gramática e Portugueses falam línguas diferentes. Reparem que se trata de uma jornalista, não de um cantoneiro de limpeza.

 

[Texto 5760]

Helder Guégués às 14:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
01
Abr 15

Regência verbal: «propor-se»

É só cortar

 

    «O gestor», recomenda o autor, «deve definir objectivos precisos e propor-se a alcançá-los.» Francisco Fernandes, no Dicionário de Verbos e Regimes (São Paulo: Editora Globo, 36. ed.ª, 1989, p. 481), lembra que a «forma propor-se a fazer alguma coisa é condenada por muitos puristas, que mandam que se escreva propor-se fazer alguma coisa (infinito não preposicionado)». Aqui é que se aplica com toda a propriedade o aforismo de Torga e de Drummond de Andrade: escrever é cortar palavras.

 

[Texto 5707]

Helder Guégués às 12:59 | comentar | ver comentários (3) | favorito
19
Fev 15

Regência do verbo «comparar»

Por vezes soa melhor

 

      Hoje uma pessoa disse-me que aprendeu que o verbo «comparar» tem duas regências. É verdade. Comparar com e comparar a. A primeira é mais antiga e a segunda surgiu mais para evitar aquele com-com, comparar com. Aprender, e aprender sempre. Winston Churchill, uma das mais admiráveis personalidades do século XX, também dizia que estava sempre pronto a aprender, apesar de não gostar do papel de aluno.

 

[Texto 5584]

Helder Guégués às 20:48 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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07
Fev 15

Regência verbal: «dignar-se»

Não há terceira

 

      Acabam de me perguntar qual a regência do verbo «dignar-se». É dupla (a terceira — e talvez mais usada —, com a preposição a, é errónea): dignar-se fazer algo e dignar-se de fazer algo. Lembra Botelho de Amaral nos Estudos Vernáculos: «Usa Castilho a regência de saibo clássico dignar-se de, que se vai olvidando injustamente.»

 

[Texto 5531]

Helder Guégués às 17:23 | comentar | ver comentários (4) | favorito
12
Dez 14

Regência verbal: «chamar»

Não é essa a regência

 

   «Chama-se projeto 5 Gyres (giros), numa alusão a correntes marítimas, e como o nome sugere envolveu muitas voltas pelos oceanos do planeta à procura do que Marcus Eriksen e Anna Cummins, um casal de investigadores, chamam resumidamente de “sopa de plástico”» («Uma gigantesca “sopa” feita com 270 mil toneladas de plástico», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 12.12.2014, p. 24).

 

[Texto 5362]

Helder Guégués às 20:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
08
Jul 14

«Consistir em»

Só que se emende um

 

 

       Tenho de o lembrar de novo: «Pegue-se numa folha inglesa. Telegrama que lá venha com a sintaxe “consisted of” é vertido pelos tradutores de agências portuguesas por “consistia de”. Se, pois, em Portugal sempre se disse “consistir em”, “constar de”, agora a notícia jornalística ou radiofónica impõe a sintaxe espúria — “consistir de”! A decência sintáctica anda quase sempre ausente, inclusivamente das notícias de coisas que pediriam exemplar correcção» (Vasco Botelho de Amaral, Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, pp.125-6).

 

 [Texto 4813]

Helder Guégués às 15:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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