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Linguagista

Como se escreve nos jornais

Implodir a língua

 

      «Mas depois lembra-se que há pouco mais de um mês o PM se disse preocupado com a “visão autoflageladora da nossa história”, “as guerras culturais em torno do racismo e da memória histórica” e o risco delas para a “identidade nacional” – para não falar do facto de ainda em 2017 o presidente ter visitado o ex-entreposto esclavagista de Gorée e afirmado que Portugal foi o primeiro país a abolir a escravatura (o comprovativo clássico de que “nós até fomos os bons”)» («Implodir o padrão dos descobrimentos», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 20.04.2021, p. 14).

      Cada um implode o que pode. Há quem o faça com as convenções mais inócuas, mas sem discussão, da língua. Tudo minúsculas, «história», «padrão dos descobrimentos», etc. Vá lá, ainda escrevem o próprio nome — o que me parece uma tremenda vaidade — com maiúscula, mas de resto a rasoira está sempre em acção. Ah, sim, a apropriação colonialista de topónimos estrangeiros também se tornou, da noite para o dia, execranda. Goreia? Qual quê! Agora temos de respeitar os povos (os outros, não o nosso), é Gorée. Espera... mas Gorée é francês...

 

[Texto 15 029]

Ortografia: «irmãmente»

Nem só inglês

 

      «Assim sendo, os três candidatos receberão, para já, 227 mil euros cada (20% dos 3,4 milhões distribuídos irmãmente), sendo que os restantes 80% serão depois distribuídos de forma proporcional» («Subvenção estatal. Maria de Belém e Edgar Silva com menos de 5% não recebem nada», Rita Dinis, Observador, 24.01.2016, 22h58).

      A citação é mero pretexto: o que eu verdadeiramente queria era que alguém dissesse àquele cronista famoso, cujo nome agora me escapa, que é assim que se escreve o advérbio — irmãmente, e não como ele fez, sem til. É que os vocábulos terminados em transmitem esta representação do a nasal aos advérbios em -mente que deles se formem, e, assim, temos cristãmente, irmãmente, sãmente, etc. Está muito bem saber inglês, mas quando escrevemos em português, temos de saber bem, ou razoavelmente, português.

 

[Texto 15 008]