À volta da encadernação

Alguns problemas

 

      «Na sala de dourar, estão à vista peles de várias cores, espessuras e origens e também papéis (importados) com padrões irresistíveis, que apetece transformar em tecidos e vestidos. Também há armários cheios de ferramentas: chifras, aperta-nervos, furadores, viradores e ferros de gravação e douradores com muitas formas artísticas diferentes. Tudo adquirido por Vítor Santos ao longo de muitos anos. […] Uma encadernação chamada “meia inglesa”, sem cantos, com papel e pele custa 75€; a “meia francesa”, com cantos, um tamanho standard e que não necessite de grande restauro custa 110€. “Isto inclui desmanchar o livro todo, voltar a cosê-lo, colocar o transfil, arredondar a lombada, colocar o fitilho [fita marcadora], fazer os nervos, gravar”, enumera Andreia» («A Arte no Livro restaura e encaderna o passado», Rita Pimenta, Público, 4.04.2015, p. 24).

   Vejam o que regista sobre «chifra» o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «instrumento que serve para raspar e adelgaçar o couro, usado pelos encadernadores e outros mecânicos». Não quereriam dizer «outros artífices», por exemplo? Este dicionário não regista «transfil», apenas «tranchefilas»: «bocado de papel ou pelica que os encadernadores colam na parte superior e inferior da lombada dos livros para prender os cadernos». Mas encontramos «transfil» neste manual de encadernação. «Meia-francesa» e «meia-inglesa» não se escreverão como o acabei de fazer? Por aqui e por ali, leio «meia-amadora» e «meia-inglesa», por isso seria de esperar que também se escrevesse «meia-francesa».

 

[Texto 5725]

Helder Guégués às 10:20 | favorito
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