«Antes» e «dantes»

Antes de mais

 

      «A pouco e pouco tornou a viver bem, mesmo sem a fortuna de dantes, pilhada no Brasil por antigos empregados do meu bisavô» («A Monarquia», António Lobo Antunes, Visão, 23.12.2015). O leitor R. A. mandou-me esta frase com uma pergunta: «Quer comentar?» Perguntei então se o que estava em causa era a repetição do som. «Não ficava melhor “a fortuna de antes”?» Antes e dantes são sinónimos, é verdade, mas o primeiro é advérbio não apenas de tempo. Se quero dar a ideia de outrora, antigamente, é «dantes» que tendo a usar, embora também pudesse usar «antes». Como quase de certeza não quereria aquele encontro de sons (de... dan), evitava — no caso específico desta frase — ambos e optava por outrora: «A pouco e pouco tornou a viver bem, mesmo sem a fortuna de outrora, pilhada no Brasil por antigos empregados do meu bisavô.» Este «de dantes» é, curiosamente, muito encontradiço nas obras de António Lobo Antunes.

      Há, contudo, matizes que julgo não estarem nos dicionários. Certa vez, o Bom Português foi para a rua perguntar se se devia dizer «antes usava bigode» ou «dantes usava bigode», e concluiu que eram sinónimos. Imaginemos que hoje me encontro pela segunda vez — e a primeira foi na semana passada — com um homem que não conhecia. Desta vez, aparece sem bigode. Para me assegurar da identidade dele, pergunto «antes não usava bigode?», e não «dantes não usava bigode?».

 

[Texto 6509]

Helder Guégués às 08:27 | favorito
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