As carpideiras do Facebook

É por isso que gosto de latim

 

      Não sei se os nossos lexicógrafos sabem que, no Brasil, carpideira, além de pessoa a quem se paga para chorar os defuntos durante os funerais (hired mourner, para a legião de anglófonos que nos segue), também designa uma alfaia, a capinadeira, talvez pela semelhança de sons. Há carpideiras — e não percebo porque não se pode dizer «carpideiro» — desde, sei lá, a Antiga Grécia. A estas, que eram pagas, sucederam outras, e sobretudo outros (e por isso a necessidade do «carpideiro»), que se atropelam para vir depor, gratuitamente, nas caixas de comentário de jornais e rádios o seu «RIP» ou «descanse em paz». Por vezes, uma alma mais lacrimosa manda mesmo os pêsames à família, letã ou melanésia que seja, como se conhecessem o defunto de toda a vida. Normalmente sem pontuação, mas sem outros erros, porque em RIP (que, se virem por extenso, requiescat in pace, já olham como boi para palácio) não cabem muitos erros. Já em «descanse em paz» cabe um mundo de possibilidades que eles, descendentes dos navegadores, exploram largamente: «descance em paz», «descançe em paz», «deskanse em paz», «descanse em pas», «descanse en paz», «desquanse em paz»... Descanse. Descanso.

 

[Texto 8917]

Helder Guégués às 12:46 | comentar | favorito
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