Chamar «autista» a alguém

A liberdade inteira

 

      Duas frases de duas telenovelas da TVI em que se usou a palavra «autista» motivaram uma queixa de Sónia Maria Exposto, presidente da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo do Douro. A Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) analisou a queixa e concluiu que não constitui ofensa usar a palavra em tais contextos — e não se concebe que pudesse concluir de forma diferente. Lê-se no Público: «Sónia Maria Exposto refere que a doença já não é designada como “autismo”, antes como “perturbação do espectro do autismo”, por englobar indivíduos “com níveis elevados de funcionalidade e inteligência que não se compadecem com aquilo que tentaram transmitir na novela”» («Chamar “autista” a alguém pode ser ofensivo para quem sofre mesmo de autismo?», Zita Moura, Público, 11.04.2016, p. 11). Se a doença já não se chama «autismo», talvez quem padeça da doença já não se chame «autista», e por isso mesmo nunca podia haver ofensa. Não é assim tão simples, hã? Está bem. Conste que se podem usar todas as palavras, mormente no âmbito da ficção. Aliás, no dia-a-dia não é muito diferente. Não vimos já que mandar prò caralho um superior hierárquico também não é ofensivo? Então? O que me parece é que estão a querer, em vão, que se aplique a torto e a direito o segundo mandamento...

 

[Texto 6740]

Helder Guégués às 15:48 | comentar | favorito
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