É a nossa vez: peidos e bufas

Não chega a ser escatológico

 

      Não devemos eximir-nos a falar seja do que for, não há tabuísmos para quem fala da língua. Para mostrar já o nível, diga-se que James Joyce, esse grande tarado, era adepto empenhado da eproctofilia (parafilia que não encontro no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Ontem o humorista — a quem nunca achei ponta de graça — Fernando Rocha veio aconselhar Salvador Sobral: podia dizer «peido» à vontade no Norte, carago, mas que em Lisboa teria de ser «bufa», e no Casino Estoril, «flatulência». Não me parece. O que diz a bufa ao peido? Isto: «Vai tu à frente que tens buzina.» O peido, que herdámos dos Romanos, peditus, ou seja, crepitus ventris, é habitualmente ruidoso, ao passo que a bufa é sempre silenciosa (e por isso também os bufos delatam no silêncio, ou levariam muitas nos cornos). Que fazia Salvador Sobral instantes antes daquela saída? Imitava de forma magistral o som de uma trompeta. Ora, na Divina Comédia, Dante põe um demónio menor a fazer uma trombeta do cu — ed elli avea del cul fatto trombetta.

 

[Texto 7962]

Helder Guégués às 08:53 | favorito
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