«Embaixatriz/embaixadora»

Muito me contam

 

      Quiseram hoje conhecer a minha opinião sobre um texto, intitulado «Sexo e diplomacia» (aqui), de Seixas da Costa sobre o uso dos termos embaixatriz e embaixadora. A reflexão do autor começa, na verdade, em relação aos termos franceses ambassadrice (madame l’ambassadrice) e ambassadeur (madame l’ambassadeur). Conclui, e é isto que interessa, Seixas da Costa: «Na língua portuguesa, as coisas são bem mais simples. A mulher do embaixador é designada por “embaixatriz” e a diplomata que exercer a chefia de uma embaixada é designada por “embaixadora”. Não há, contudo, nenhum termo que possa identificar o marido de uma embaixadora ou de um embaixador. E refiro isto porque, desde há semanas, há um embaixador português casado com uma pessoa do mesmo sexo, facto já bastante comum em várias carreiras estrangeiras mas que julgo ser a primeira vez que acontece na diplomacia portuguesa.» Sobre esta última questão, como designar o marido do embaixador, não vamos dizer nada. Quanto ao mais, o que aprendi ainda na escola primária é que embaixatriz é a mulher do embaixador. Alguns acham absurdo que alguém que não desempenha nenhum cargo nem representa nada tenha direito a designação específica. A esses, que não são assim tão poucos, recomenda-se que reflictam na razão que terá levado os falantes a criarem tal termo.

      Com o decurso do tempo, e quando as mulheres chegaram à chefia de embaixadas, nada mais natural que se quisesse distinguir, encontrando-se outro termo, e ficou embaixadora. Tudo isto me parece mais ou menos pacífico. Ou nem tanto: veja-se como os dicionários ainda actualmente tratam o caso. Ou um dicionário. Diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora de embaixadora: «1. por flexão de género, depois de aberto o acesso pleno das mulheres à carreira diplomática, representante, no grau mais elevado, de um Estado junto de outro; chefe do corpo diplomático de um país junto de outro; 2. popular esposa do embaixador». A definição do primeiro sentido está redigida, curiosamente, quase como uma justificação. Quanto à segunda acepção, nunca deparei com ela. No que respeita a embaixatriz, eis a definição no mesmo dicionário: «1. esposa do embaixador; 2. por extensão semântica, depois de aberto o acesso pleno das mulheres à carreira diplomática, representante, no grau mais elevado, de um Estado junto de outro; chefe do corpo diplomático de um país junto de outro».

      Em suma, lá se perdeu a distinção, é (querem que seja) tudo igual. Para isso, não precisávamos de dois termos.

 

[Texto 8599]

Helder Guégués às 21:41 | comentar | favorito
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