«Espoletar/despoletar»

Um caso sintomático

 

      Muito curioso «O Público errou» desta segunda-feira: «Ontem, na crónica de Vicente Jorge Silva, a palavra “despoletar” (no seu sentido correcto, de tirar a espoleta) foi erradamente substituída por “desencadear”. Pelo lapso, pedimos desculpa ao autor e aos leitores» (p. 4).

      O que temos aqui? Talvez um sinal de vida — dos escassíssimos que temos tido nos últimos anos — dos revisores do Público. Também não é de descartar que o fautor de semelhante troca criminosa levasse uma rabecada das grandes. Esmiucemos o caso. Primeiro, sublinhe-se, pouca gente se entende com o espoletar/despoletar, que, pessoalmente, me parece uma grande treta. Compreende-se, contudo, que haja pessoas mais agarradas a estes termos do que outras, pelo seu passado ou por qualquer outra razão. Quando não estão a ser usados no seu sentido próprio, sugiro sempre que se substituam por termos inequívocos, e entre eles está o verbo «desencadear». Sendo assim, temos de citar o trecho da crónica em que houve esta substituição lexical. «Não basta confiar, por isso, num Presidente capaz de desencadear essas ameaças encarnando um populismo “bom” ou num primeiro-ministro que conquista a guerra das audiências cozinhando uma cataplana no programa da Cristina» («Da violência doméstica à vertigem bancária», Público, 10.03.2019, p. 32).

      A meu ver, salvo num pormenor — decisivo no episódio —, que é a autorização/conhecimento do autor do texto, a substituição é legítima. Mais: o texto de Vicente Jorge Silva carecia de uma poda muito maior, pois tem erros. Ainda tem erros, e não apenas gramaticais. A preocupação, mesmo indignação, que se adivinha nas entrelinhas devia ir mais para estes erros do que para a não autorizada, ainda que justificável, substituição. Pensem nisto.

 

[Texto 10 948]

Helder Guégués às 08:42 | comentar | favorito
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