«Héctico/ético»

Assim se empobrece

 

      «Na lista dos barbarismos de escrita ou cacografias que campeiam nas obras de Camilo deve inscrever-se o éthico com o grupo helénico th, quando o que cumpria ser impresso é ético ou héctico», escreveu Mário Barreto. Temos aqui um problema: numa tradução do francês, falava-se de velhos com problemas de saúde, paralíticos, nervosos, etc., — e étiques. Sobre o nome da doença não pode haver controvérsia: héctica. Pois, mas que nome se dá ao indivíduo que sofre de héctica? Todos os modernos dicionários afirmam que é «héctico». Eu próprio já o defendi algures, antes de saber, como sei hoje, que os dicionaristas mandam indevidamente para o lixo verbetes, sobretudo de sinónimos e variantes. Ainda na semana passada pensei nisto quando o prédio e tudo aqui à volta, incluindo os carros, estava repleto de agúdias. Há pelo menos meia dúzia de variantes, mas os dicionários registam somente uma ou duas. Isto é tratar bem um legado riquíssimo que recebemos? Passa-se o mesmo com as variantes de «héctico». Sim, o tradutor tem razão: temos héctico, ético, étego, héctigo e hétego. Quer os dicionários as registem, quer não, o falante tem todo o direito de as usar.

 

[Texto 10 167]

Helder Guégués às 15:50 | favorito
Etiquetas: ,