Léxico: «capa de asperges», «pardo»

Da falta de cuidado

 

      «Palmira Falcão, artesã de Sendim, Miranda do Douro, há muito que se dedica à elaboração dos trajes tradicionais confeccionados em pardo, burel e linho, assentes na cultura tradicional do Planalto Mirandês, território que abrange os concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso, no distrito Bragança. […] Segundo o investigador António Rodrigues Mourinho, a capa de honras mirandesa tem origem na região espanhola de Leão e “remontará aos séculos IX ou X, tendo origem na ‘capa de chiba’ que, traduzido do espanhol para português, quer dizer ‘capa de cabra’”. […] Há também quem defenda que a capa de honras mirandesa poderá ter surgido da capa pluvial de Arperjes, usada nos mosteiros das Terras de Leão (Espanha). […] A capa de honras é uma peça com grande valor etnográfico. Implica um trabalho minucioso por parte do artesão, devido à sua grande complexidade, e é confeccionada com lã de ovelha, depois de fiada, urdida, tecida e pisoada (burel)» («“O homem sempre a usou e a mulher sempre a quis usar”. O que é?», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 6.04.2017, 15h48).

      Será mesmo «capa de chiba»? Não sei; eu só encontro capa de chivo. E a «capa pluvial de Arperjes»? Capa pluvial não escapará a nenhum leitor. Mas Asperjes? O leitor vai pensar que se trata de uma localidade de Leão. Trapalhada, confusão, ignorância. Trata-se da capa de asperges, também chamada simplesmente pluvial, de uso litúrgico. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é a «capa que o sacerdote veste para fazer esta aspersão; pluvial». Morno. Vá, quente. A capa de asperges ou pluvial é o paramento litúrgico usado pelo bispo ou sacerdote em acções litúrgicas solenes, fora da missa: sacramentos, bênçãos, exéquias, procissões, etc. De pardo, aquele dicionário diz-nos que é um regionalismo para burel de cor parda. É. Era o nome que o burel tinha em terras de além-Tua.

 

[Texto 7682]

Helder Guégués às 20:06 | favorito