Léxico: «corónide»
Preparados para quando aparece
Não sei quê e tal «até que o arabesco final, a corónide, seja aposto depois do texto». A Porto Editora até regista o termo corónide, mas apenas nestas acepções: «1. coroa; 2. cornija; 3. figurado remate; 4. figurado complemento». É bem verdade que podia ser aquele primeiro sentido figurado — mas então seria somente para iniciados. Não pode ser assim. Paradoxalmente, a acepção em falta está pressuposta na etimologia: «Do grego koronís, -idos, “curvo”, pelo latim coronĭde-, “marca de fim de livro”». Ou seja, o próprio dicionário indica que o termo foi usado exactamente para designar esse sinal gráfico que marcava o fim de um texto na Antiguidade. Mas depois, quando chega à definição, essa referência evapora-se. Dir-se-ia um silêncio eloquente, mas não vamos gastar assim um oxímoro. A corónide não era um simples ornamento, nem um arabesco decorativo: era um símbolo funcional e codificado nos manuscritos gregos para indicar o término de uma obra ou secção. Surgia frequentemente na margem esquerda e, segundo os estudos de paleografia, podia apresentar-se como um traço curvo ornamentado, uma guirlanda estilizada ou, nalguns casos, até uma figura inspirada em aves — o que faz sentido, já que κορώνη (korōnē) também significa «corvo» em grego. O seu uso distingue-se de outros sinais como a diple obelismene ou os sinais de parágrafo, tendo uma função específica na organização e transmissão dos textos antigos. Portanto, se já sabemos que o termo tinha esse significado e se a própria etimologia do dicionário o confirma, falta apenas incluir o sentido explícito na definição. Algo como: «PALEOGRAFIA sinal gráfico utilizado em manuscritos gregos antigos para indicar o fim de um texto ou de uma secção importante, frequentemente com forma estilizada de guirlanda, traço curvo ornamentado ou, ocasionalmente, representações inspiradas em aves. O seu uso influenciou a tradição manuscrita latina, onde surgiram símbolos similares em códices medievais, ainda que gradualmente substituídos por rubricas e marcas decorativas.» Não se trata de um capricho, antes de uma questão de rigor e completude lexical. Afinal, se a Porto Editora já incluiu a pista na etimologia, porque não fechar o círculo e dicionarizar o termo como deve ser?
[Texto 20 924]