Léxico: «estatina»

Deusas e doenças

 

      E a propósito de farmacêuticos: na semana passada, uma pessoa que estava a ler um jornal inglês perto de mim perguntou-me o que eram statins. Disse-lhe que em português se diz estatinas e, do que eu sabia, o que fazem. Honestamente, creio ter dito mais do que fazem os dicionários, e não acabara de ler a Terapêutica Dermatológica de Stephen E. Wolverton. «QUÍMICA fármaco usado para controlar os níveis de colesterol», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não apenas se diz, actualmente, que o mais provável é que a capacidade das estatinas para baixar a inflamação é que traz benefícios e não a capacidade de baixarem o colesterol, como se conhecem os seus efeitos benéficos sobre o sistema imunitário, o sistema nervoso central e os ossos. Ou seja, pode dizer-se muito mais sobre as estatinas. Sobre o seu uso exagerado na prevenção primária, os muitos efeitos secundários e riscos, um dicionário geral da língua não tem de falar.

    O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apresenta ainda, neste verbete, outro problema: a etimologia. Indica que provém «Do latim Statina, “divindade”». Isso só é verdade para a primeira acepção: 1. MITOLOGIA divindade invocada na Antiguidade romana quando as crianças davam os primeiros passos». Estatina vem de mevastatin, o nome que o bioquímico japonês Akira Endō deu a esta primeira estatina, e depois -statin passou a sufixo de todas as estatinas. O que já é verdade é que o nome da deusa romana está ligado à raiz indo-europeia stā-, «estar, manter-se de pé», o mesmo acontecendo com o sufixo -statin. Quem souber mais, fale agora ou cale-se para sempre.

 

[Texto 7624]

Helder Guégués às 18:58 | favorito