Léxico: «golpelha | gorpelha»

Reconhecida

 

      «Naqueles tempos, a fazenda onde vivia a família de Manuel Estêvão – e por onde passava uma ribeira, daí a alcunha que ficou para sempre – era bastante requisitada no que a esta arte diz respeito. “As pessoas da serra não sabiam fazer e vinham encomendar à minha mãe e à minha avó. Havia aquelas gorpelhas grandes para pôr em cima dos burros, para apanhar alfarrobas, figos secos... Serviam também para semear o trigo, o adubo: punha-se um braço para enfiar no ombro, a saca cheia de trigo e adubo e vá de semear aí pelas terras. Toda a gente encomendava a elas. Mas nem era a dinheiro, era a troco de milho, batatas, coisas assim. Só nas feiras é que se vendia a dinheiro, mas era uma bagatela”, lembra» («Empreita. Nunca é tarde para aprender... nem para ensinar», Bruno Venâncio, i, 3.07.2019, 21h44).

      É uma das críticas que faço aos dicionários dos nossos dias, pois é um aspecto que contribui para o empobrecimento da língua: não registarem todas as variantes. No caso em apreço, que mereceu a atenção de filólogos e estudiosos da língua ao longo do tempo, é sabido que no Algarve se usa a variante gorpelha. Se os tais dicionários apenas registam golpelha, o que vão pensar os falantes?

 

[Texto 11 683]

Helder Guégués às 08:15 | favorito
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