Léxico: «hurdício / matacão»

Isto não tem fim

 

      «O fascínio [do Castelo e Convento de Tomar] começa na bem conservada estrutura militar, desenhada segundo planta que Gualdim Pais importou do Próximo Oriente e que começou a edificar em 1160, introduzindo inovações como a torre de menagem,  o alambor (espessamento da base da muralha) e o hurdício (grade de madeira com que se resguardavam muralhas)» («Templários. Os monges-guerreiros andaram por aqui», Luís Maio, «Fugas»/Público, 27.04.2019, p. 6).

      Parece estar quase tudo dito, mas não é bem assim. Para alguns dicionários (o da Porto Editora não regista o termo, fugindo assim à dificuldade), o hurdício, que provém de um termo do baixo-latim, é o nome que tinha a grade de madeira com que se protegiam as muralhas para não serem muito danificadas por aríetes e projécteis. Contudo, os historiadores também dizem que na Torre de Menagem de Longroiva, erguida pelo mesmo D. Gualdim Pais em 1174, se construiu o primeiro hurdício em território nacional, e descrevem-no como uma galeria de madeira, antepassado dos balcões com matacães e dos balestreiros, que coroava torres e panos de muralha e se destinava à prática de tiro vertical. São claramente dois conceitos diferentes.

      E vejo agora que o dicionário da Porto Editora também não regista a referida acepção de matacão, e em textos de apoio da Infopédia ora usam «matacão» ora «mata-cão». Enfim, mais uma editora que julga poder passar sem revisores. Vê-se.

 

[Texto 11 309]

Helder Guégués às 12:44 | comentar | favorito
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