«Quilograma/quilo»

Mais trapalhadas jornalísticas

 

      «Faz parte de qualquer compêndio de piadas populares a velha “pergunta com ratoeira”: o que é mais pesado, um quilo de chumbo ou um quilo de penas? Os mais incautos responderão “um quilo de chumbo”, para gáudio do autor da pergunta, que responderá do alto da sua sabedoria que “pesam o mesmo”. Se já esteve numa destas duas posições, fique a saber que pode ter cometido dois erros. O primeiro é que não há “quilos”, apenas “quilogramas”. O segundo é que, em alguns pontos do mundo, um quilograma de penas e um quilograma de chumbo podem realmente não pesar o mesmo» («Sabia que um quilograma não pesa o mesmo em todo o mundo? Isso vai mudar e é uma decisão de peso», Gonçalo Teles e Joana Carvalho Reis, TSF, 16.11.2018, 8h56).

      Será excessivo afirmar que isto não tem pés nem cabeça? Com que então, não há quilos, apenas quilogramas, hã? Se o primeiro é a forma reduzida do segundo, são exactamente o mesmo. Primeiro erro. Um quilograma de penas e um quilograma de chumbo podem não pesar o mesmo? Trapalhada e segundo erro. Pesam, no mesmo sítio e no mesmo tempo, o mesmo. A variação, mínima, é geográfica, isto é, pode variar de local para local — com diferença de microgramas.

      Mais erros no mesmo artigo: «Não é só o quilograma que passa a ser medido com recurso a constantes físicas. Também o Ampere (A), que mede a corrente elétrica, o Kelvin (K), usado para a temperatura, e o “mol”, usado na medida de substâncias, vão sofrer alterações, passando a ser determinados com recursos [sic] a constantes.» Trapalhada. É o ampere (A), o kelvin (K) e a mole (mol). Difícil? No artigo da Rádio Renascença de terça-feira sobre o mesmo assunto, até a mim me induziram em erro, ao atribuírem também o género masculino a «mole».

 

[Texto 10 299]

Helder Guégués às 16:47 | comentar | favorito
Etiquetas: ,