Léxico: «sífilis | paresia geral»

Não estamos a falar do mesmo

 

      «Tom Hardy personifica o lendário Al Capone neste filme realizado por Josh Trank, que também assina o argumento. “Capone” passa-se durante os últimos tempos da vida do “gangster” que aterrorizou Chicago, quando este, depois de ser libertado, sofria de paresia, uma forma de demência causada pela sífilis e vivia desde 1940 com a família e os guarda-costas numa mansão numa ilha na Florida, rodeada de agentes do FBI que o vigiavam e ouviam com escutas 24 horas sobre 24» («Três filmes para ver esta semana», Eurico de Barros, Observador, 30.07.2020, 6h31).

      Parece que Capone sofria de neurossífilis. Quanto a paresia, parece-me claro que não é a que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista: «paralisia parcial, leve ou temporária, que se traduz por enfraquecimento muscular». A definição do Dicionário de Termos Médicos ainda é mais incompleta e, como dizê-lo?, menos científica. Imaginar um temível pistoleiro paresiado por uma espiroqueta é redentor. Mas não: a sífilis apresenta quatro estágios clínicos (primário, secundário, latente e terciário), e só nos últimos ocorre o que se costuma designar por paresia geral — perda de memória, alterações de personalidade e da fala, irritabilidade e sintomas psicóticos. Ou seja, um quadro complexo em que nem sequer se inclui a paresia como definida naqueles dicionários.

 

[Texto 13 830]

Helder Guégués às 09:00 | favorito
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