Morgue, necrotério, tanatório... e dicionários

Depósito de cadáveres

 

      No passado mês de Julho, o partido Livre apresentou na 32.ª reunião da Assembleia Municipal de Lisboa a proposta de um tanatório municipal (há apenas um em todo o País, em Matosinhos, afirmam), «um espaço neutro do ponto de vista religioso, que possa servir as cerimónias fúnebres tanto de quem não tem religião, como de quem professa uma religião, maioritária ou não». O que é um tanatório? Demos a palavra ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «edifício onde são preparados os cadáveres para serem cremados ou sepultados». É isto que o Livre pretende? O Tanatório Municipal de Matosinhos é isto? Como se costuma dizer, depende do conceito. Passamos a fronteira, e o dicionário da Real Academia Espanhola garante que tanatorio é o «edificio en que son depositados los cadáveres durante las horas que preceden a su inhumación o cremación». Já é diferente. Depois temos, talvez também mal definidos, dois termos relacionados — ou apenas um, porque se trata de um galicismo e da tentativa de o substituir. Refiro-me a morgue e necrotério. Morgue é o termo francês para... necrotério, que inventámos (inventou-o um brasileiro, o visconde de Taunay) no século XIX. Por uma vez, parece que deu resultado, pelo menos no Brasil, porque cá — perto de uma das igrejas de Castelo Rodrigo, lá está, com entrada por uma porta larga, quase quadrada, de metal destoante, a morgue da vila — prefere-se o termo «morgue». É mais fino, pelos modos. E a definição destes termos? O dicionário da Porto Editora diz-nos que morgue é o «lugar onde se expõem cadáveres cuja identidade se pretende averiguar e onde se fazem autópsias judiciais, necrotério»; já necrotério é o «lugar onde são colocados cadáveres que vão ser sujeitos a autópsia ou cuja identidade se pretende averiguar; morgue». Se são sinónimos, como é que um é um edifício e o outro é um lugar? Para a Real Academia Espanhola, morgue é apenas o «depósito de cadáveres». É óbvio que os dicionários — não nós, falantes, mas os dicionários — só ficaram com um sentido, uma acepção do termo francês. Primeira acepção registada no Trèsor: «Salle où, dans un hôpital, une clinique, un hospice, reposent les morts avant l’inhumation ou les obsèques». Segunda acepção: «Lieu où les cadavres non identifiés sont exposés pour être reconnus. Synon. (à Paris) Institut médico-légal.» Apresenta-se aqui uma boa ocasião para os lexicógrafos repensarem na questão e corrigirem os dicionários.

 

[Texto 9768]

Helder Guégués às 07:35 | favorito