Paciência de santo — e de santa

Concordem lá

 

      De 2018, mas ainda com o inebriante cheiro a tinta. Também nisto — e o toque? — os dispositivos electrónicos ficam a perder, ainda não se podem snifar. «[O avô Eduardo] Não gosta muito de conversar, embora adore ouvir-me contar coisas da escola. Resmunga com quase toda a gente, até com a dona Felicidade, que vai lá a casa fazer-lhe a comida e que, como diz a minha mãe, tem uma paciência de santo...» (Uma Vela à Janela, Maria Teresa Maia Gonzalez. Ilustração de Rita Duque. Lisboa: Zero a Oito, 2018, p. 7).

      Será mesmo que D. Felicidade tem paciência de santo? Nestes casos de religião e língua, prefiro seguir Frei Luís de Cácegas: «Nesta [doença], e em outras, que teve por toda a vida, mostrou paciência de santa, não sofrendo que por ela deixassem as religiosas de acudir aos ofícios divinos, e ficava de boa vontade só, porque elas não desacompanhassem o coro» (História de S. Domingos Particular do Reino e Conquistas de Portugal, Luís de Cácegas. Lisboa: Oficina de António Rodrigues Galhardo, 1767, 2.ª ed., p. 573, com actualização ortográfica minha). Parece-me evidente que tem de concordar em género, e acho muito estranho que nos tempos que correm, de assanhada luta pela igualdade, seja uma escritora a descurar este aspecto. Quanto à forma de tratamento «dona», prefiro-a sempre abreviada — e sempre em D. ou, vá, D.ª, ao contrário das quatro (!) formas reconhecidas pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras. Puro desnorte.

 

[Texto 12 470]

Helder Guégués às 10:15 | favorito
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