Sobre a haplologia

Limite-se à economia e à política

 

      O Dr. Bagão Félix insiste em publicar a sua opinião sobre matérias que — como já pudemos comprovar mais de uma vez — não domina. Vejamos o que veio ensinar às massas na edição de hoje do Público: «A poupança silábica está cada vez mais presente na linguagem oral e escrita.
Não me refiro à capacidade de fusão digestiva que, na oralidade, transforma várias palavras seguidas numa quase só palavra dita e, não raro, incompreensível, e também não escrevo aqui sobre os códigos que se instalaram no reino das mensagens e correio electrónico, em que letras como o k, antes estrangeiradas, se tornaram comuns. Falo apenas do fenómeno da economia de sílabas que se tem verificado, com aparente sucesso, sobretudo no campo
 da política e da economia. Três exemplos: competitividade que muitos eruditos teimam em reduzir a “competividade”, empreendedorismo também sincopado de uma sílaba para dar em “empreendorismo” mais rapidamente lucrativo e precariedade a quem se vem tirando um dos “e” em jeito de “precaridade”» («No poupar é que está o erro», Bagão Félix, Público, 4.03.2016, p. 49).

      Nada disso: no poupar é que está o génio da língua. É claro que Bagão Félix nunca ouviu falar num fenómeno linguístico chamado haplologia, um caso particular de dissimilação, que nos leva, por exemplo, a dizer bondoso em vez de bondadoso, estendal em vez de estendedal, idolatria em vez de idololatria, etc. Portanto, não apenas não merece censura que alguém diga empreendorismo, como quase de certeza será a forma que se irá fixar no futuro. E devia estar registada nos dicionários. Quanto a precariedade, a questão é outra e não convém misturá-las.

 

[Texto 6660]

Helder Guégués às 09:41 | comentar | favorito
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