Sobre «bergamota»

Para nós é mais simples

 

      Ontem, no programa Comando Actualidad, na RTVE, estavam no vale de Ricote, Múrcia. Na localidade de Ojós, o apresentador visitou a loja de Mari, uma cave com pé-direito tão baixo, que teve de se agachar, para ver como se fazem os bizcochos borrachos, que, depois de cozidos, são mergulhados num líquido que contém essência de bergamoto. «Bergamota?», perguntou o apresentador. «Bergamota não: bergamoto. Bergamota é para fazer perfumes; bergamoto é para fazer doces.» Será mesmo assim? O Dicionário da Real Academia Espanhola diz que bergamoto é o «limero que produce la bergamota», e bergamota a «variedad de lima muy aromática, de la cual se extrae una esencia usada en perfumería». Ou seja, bergamoto é a árvore, e bergamota o fruto. Aquele dicionário regista ainda o vocábulo bergamote, variante de bergamoto.

     E nós? Nos nossos dicionários apenas encontro bergamota (com a variante vergamota). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista quatro acepções: 1. «árvore (variedade de laranjeira) pouco cultivada em Portugal, de cujos frutos se extrai a essência de bergamota utilizada em perfumaria». Corresponderá ao castelhano bergamoto. Repare-se que se diz que é um limero. A acepção 2 designa o próprio fruto (hesperídio) daquela árvore. A acepção 3 é relativa a uma «planta muito aromática, da família das Labiadas, cultivada em Portugal; vergamota» e, por fim, a 4 é o nome que tem uma «variedade de pêra perfumada e suculenta». Já o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, publicado em 1981, vai por outros caminhos. Começa por acolher apenas três acepções: «espécie de cidra, de cheiro mui agradável, de que se extrai a essência do mesmo nome»; «certa espécie de peras de muito e delicado sumo e de que se conhecem duas variedades: uma de Verão e outra de Inverno»; e, por fim, é o «nome de certa planta aromática, da família das Labiadas». Ou seja, José Pedro Machado esqueceu-se de referir que é também o nome da árvore que dá aquele fruto, espécie de cidra. A essência, usada em perfumaria, a que os dicionários aludem há-de ser o oleum bergamottae. Já o uso do fruto em doçaria nem sequer mereceu menção, pois que é um dos usos comuns de qualquer citrino. E mais: para a calda decerto que se usará uma pequena porção desta mesma essência. Em suma, nada justifica a distinção que D. Mari fez. Em português, como só temos uma palavra, estamos a salvo de qualquer erro.

 

[Texto 7503]

Helder Guégués às 23:38 | comentar | favorito
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