Sobre os diacríticos

Ciência, isto?

 

      «O que complica o caso de bem do ponto de vista ortográfico é que, embora constituindo com o segundo elemento unidade sintagmática e semântica, ela não o é rigorosamente da mesma natureza quando há necessidade do emprego do hífen e quando, justapostos, os elementos se ligam sem o concurso do diacrítico, isto é, juntos» («O comportamento de “bem” prefixado», Evanildo Bechara, O Estadão de S. Paulo, 7.02.2009).

      O que este imortal (não que ficasse com essa ideia quando o vi agora em Lisboa) afirma é o que quase todos os autores afirmam no Brasil: o hífen é um sinal diacrítico. Pelo que pude ver, os nossos dicionários — incluindo o Dicionário Houaiss de 2003 — não consideram o hífen sinal diacrítico, ao contrário dos brasileiros. Transcrevo o que se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o que valerá por todos: «diz-se de ou sinal gráfico (acento gráfico, cedilha, til, trema) destinado a distinguir a modulação das vogais e a pronúncia de certas palavras». Exactamente como aprendi: os diacríticos são sinais que fornecem informação puramente fonética. Mas aquela lição de além-mar não é para nós assombração de além-túmulo: também Cristóvão de Aguiar, nas Charlas Sobre a Língua Portuguesa, considera o hífen um diacrítico. Edite Estrela, nas Dúvidas do Falar Português, escreve que são sinais diacríticos os «acentos, til, hífen, cedilha, apóstrofo». O mesmo para o Dicionário Terminológico, agora tão pouco citado. Não é preciso aprofundar para concluir que o conceito está, estranhamente, dependente da opinião de cada autor.

 

[Texto 6447]

Helder Guégués às 01:04 | favorito