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Linguagista

Sobre Península Ibérica

E outras penínsulas

 

      «Iémen — e Áden em particular — é há muito terreno fértil para a Al-Qaeda na Península Arábica, considerado o braço mais perigoso da rede terrorista fundada por Osama bin Laden, pelas suas capacidades militares e a eficácia demonstrada para planear atentados a nível internacional. Nos últimos anos, drones americanos têm atacado incessantemente o grupo, com o aval de Hadi (e do Governo saudita), mas o conflito com os huthis, a ingerência saudita e a pobreza são ingredientes que continuam a contribuir para a implantação do jihadismo» («Atentado reivindicado pelo Estado Islâmico mata governador de Áden», Ana Fonseca Pereira, Público, 7.12.2015, p. 20).

      Era também o meu entendimento até recentemente, mas não pode ser. Se grafar Península Ibérica é uma excepção (assim como Presidente da República e País, quando referidos aos nossos, por exemplo), é claro que não se pode, incongruentemente, estender a excepção, ou vamos torná-la regra. Há outras excepções, decerto, mas não passam disso mesmo. Quanto ao nome das penínsulas, era este também o uso em castelhano, mas com a reforma (palavra que os que participaram nela recusam, talvez pela mesma razão que leva a preferir «doença oncológica» a «cancro») de 2010, passou a estatuir-se que, quando o nome específico de uma península é um adjectivo que alude a um topónimo, se escreve com minúscula: península ibérica, península itálica, península arábiga, mas península Valiente. Lógica tem, falta agora ver como serão, numa década ou duas, os usos.

      O caso de Península Ibérica é até o mais curioso, pois hoje em dia nem sequer já usamos — nós e os falantes de castelhano — o topónimo de que deriva, Ibéria. (Vi-o há pouco, repetidamente, numa tradução do inglês, mas por manifesta imperícia da tradutora.) O que pode causar ainda mais estranheza. Com outros não é o mesmo: para península itálica temos Itália; para península arábica temos Arábia; para península balcânica temos Balcãs, etc. Outra excepção para nós: Ilhas Britânicas. Ora, também deixámos de usar Britânia. A excepção pode assentar aqui, no desuso do topónimo de que derivou o adjectivo.

 

[Texto 6460]

3 comentários

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    Helder Guégués 09.12.2015 00:03

    Será mesmo, caro desconhecido? Sobre Adém e Adem não há dúvidas, e Rebelo Gonçalves regista-os (p. 27); não acolhe, contudo, o primeiro. Porque será? Ora, tão-só por não ser português. «Está bem», pergunta-me, «mas se quisesse mesmo assim usá-lo, como se escreveria?» Ora pensemos. Não é ámen que se escreve? Então, também seria Áden. Em castelhano sim, é Adén — mas nesta língua também se escreve amén. Para este topónimo, a língua portuguesa tem dois exónimos, e chegam bem: Adem e Adém. O endónimo não é Aden; este é o exónimo da língua da potência que dominou o território. O endónimo é árabe, محمية عدن.
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    Anónimo 09.12.2015 08:37


    Obrigada pelos esclarecimentos, caro Helder.
    Margarida Ferreira
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