Sobre uma nota

Ver humor onde o não há

 

 

      «N. de T.: A designação proposta pela personagem no original é ASHamed Jews, sendo o nome abreviado daí resultante ASH (“cinza”, que aqui remeteria para a ideia de destruição de um estado de coisas). Por razões de adaptação e dada a impossibilidade de reproduzir a mesma abreviatura a partir da [sic] designação do grupo em português, optou-se aqui, com aprovação expressa do autor, por uma recriação do nome, de modo a [sic] preservar a funcionalidade humorística que este desempenha ao longo do texto» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª ed., p. 144).

      Não se trata de uma abreviatura, evidentemente, mas isso é o menos. Posso dar a minha opinião como leitor? Com a solução encontrada — «Judeus enVERgonhados» —, não se preservou a «funcionalidade humorística». Claro que em inglês não é nenhum achado ou produto da genialidade do autor: em ashamed está contido ash, nada mais. Salta à vista que de «envergonhado» não se pode extrair nada de humorístico. A possível (nem todos os jogos de palavras se podem traduzir) solução estaria, com aprovação expressa do autor ou sem aprovação expressa do autor, num sinónimo de «envergonhado». Sei lá, talvez em «vexado»: Judeus vEXados. Este EX remeteria, como ASH, para algo que já foi. Quanto «ao longo do texto», a verdade é que a primeira ocorrência, depois da nota, de ASHamed não ficou assinalada na tradução: «Não fosse o caso de Ronit Kravitz ser filha de um general israelita, ter-lhe-ia telefonado para propor um fim-de-semana de envergonhado rebolanço judeu [ASHamed Jew whoopee] em Eastbourne» (idem, ibidem, p. 145).

 

[Texto 4588]

Helder Guégués às 13:56 | comentar | favorito
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